
Um homem se constrói sobre os alicerces sólidos da sua memória. Ainda que inventadas, a poesia de suas lembranças edifica seu caráter, pavimenta suas paixões e orienta seus sonhos de um futuro próspero e lúbrico.
Ora, ninguém nasce cínico nem piloso. É uma arte que se aprimora com o tempo e com as calosidades que a vida traz. Mas há de se começar bem jovem, com a mão na enxada, cuidando da plantação.
No meu caso, quando era bem menino, não havia internet e o seu estoque infinito de putaria, disponível no conforto dos nossos lares. O videocassete, aparelho revolucionário que eu considero o grande difusor do sexo explícito, estava apenas começando. Ainda era um eletrodoméstico do núcleo rico da novela das oito.
As revistas Playboy, portanto, eram uma fonte mais acessível para se encontrar com as partes mais rosadas da anatomia feminina. Eu disse rosadas? Minto. Nos anos 80, nos encontrávamos, felizes, com o misterioso negrume dos pêlos.
Digo para a juventude que me lê: não havia espanto, as mulheres eram naturalmente acarpetadas, era o normal. Até 1985, o ano em que vimos…
Cláudia Ohana, nossa Isabella Rosselini cabocla.
Pergunte a qualquer marmanjo com idade entre 35, 40 anos hoje. A molecada se encontrava e dizia: “você viu a Cláudia Ohana??” Era um misto de fascínio, tesão e terror. “A Cláudia Ohana vai te pegar”. Ou ainda, pouco tempo depois, um grande amigo meu (não vou citar nomes) disse, durante a projeção do filme Kuarup do ex-Claudia-Ohana Ruy Guerra (o filme é uma merda mas há ótimas mulheres nuas nele): “se a Cláudia Ohana ficar pelada a tela vai escurecer!”
Uma noite sem estrelas, um sono sem sonhos, o vazio escuro antes do Big Bang. A vida devia ser assim antes de eu nascer.
Era, de fato, o alvorecer do Homem. Diante daquele monolito negro, eu pulei, urrei, joguei meus brinquedos para o alto, cobri de porrada meus companheiros. E jurei: havemos de nos reencontrar, ainda que seja no século XXI.
As primaveras foram se sucedendo e a imagem da Cláudia reverberava nos adolescentes, adultos, pais de família.
Finalmente, cumpro minha promessa. Derramo jatos de lágrimas sobre a revista photoshopada de 2008, eu, Adamastor Goldman, a caminho do meu entardecer, e Cláudia, eternamente jovem, seu jardim aparado porém ainda vistoso, o delgado portal para uma dimensão em que somos ao mesmo tempo meninos, homens, idosos e bebês chorões.
* * *
Toda essa conversa me fez lembrar de uma ocasião especial, muitas décadas atrás.
Apreciava eu tranqüilamente uma fita de sexo explícito, na escuridão e conforto uterinos do lar. Não me recordo qual o filme, mas algum da época que foi alugado por mim, J.F., R.V. e mais outros comparsas (alguns dos quais me lêem neste momento). Repito: o videocassete era o e-mule dos anos 80, as fitas eram compartilhadas e comentadas pelos amigos.
Mas voltando, eis que surge uma mulher, obviamente nua pois se tratava de um filme de sacanagem, com a maior depressão vaginal que um ser humano possa ter ou sequer imaginar que alguém poderia ter e continuar sendo chamado de humano. Um verdadeiro precipício enevoado logo abaixo do umbigo. Muitos anos depois, continuo sem ver nada igual, nada sequer próximo - pelo menos, nada que envolvesse a necessidade de um cirurgião e transfusão de sangue para consertar a bagunça.
E antes do sexo oral, o ator diz, estupefato:
- Que bucetão! Que bucetão! - e a mulher ralha:
- Não precisa dizer isso duas vezes… - no que recebe como resposta:
- Eu não disse duas vezes…
São essas piadas grossas que me fortalecem e me edificam. Penso nelas antes de dormir o sono dos justos e dos justiceiros.