Barbeiros

Não gosto de cortar cabelo no barbeiro.

Porque não gosto de conversar com os barbeiros.

Odeio a artificialidade da palavra iminente, o papinho de futebol enviesado (os barbeiros não costumam entender porra nenhuma de futebol, pelo menos, o futebol que eles pensam não é o mesmo que eu penso), ou ainda as habituais reclamações sobre o tempo, os tsunamis, os terremotos, a vida, o universo e tudo mais. Não converso por conversar, estou longe de possuir este rasgo de humanidade, essa ânsia de comunicar qualquer coisa, ainda que seja nada.

E freqüento o mesmo barbeiro deve ter uns vinte anos. Os mesmos caras. Lembro da primeira vez que fui, era criança mas já não tinha o menor saco em relação a barbeiros falantes. Então ele, o barbeiro, entre tesouradas, chegou ali no meu ouvido e perguntou baixinho pra ninguém escutar: “você gosta de xoxota raspadinha ou cabeluda?”

O sujeito ainda trabalha lá, virou o século cortando cabelos e barbas, puxando os assuntos variados de sempre.

Agora eles falam do trânsito, dos estacionamentos, falam também bastante sobre, ah, não sei, não presto atenção. Fazem piadinhas, eu sorrio pro espelho, só pelo psicopático vestígio de educação.

Vinte anos, eles devem pensar, eu vi esse moleque crescer, ganhar barba, até uns fios brancos ele já tem, e hoje nem sei o nome dele, onde mora, o que ele faz, qual time de futebol que ele torce. Esse moleque é antipático pra caralho, a gente querendo ser legal, ainda corto a orelha desse filha da puta.

Eu penso, quem sabe já consegui o sucesso de não ser notado? Quem sabe quem não conversa não existe, na lógica quase-cartesiana dos animais falantes? Eu gostaria que fosse assim, o meu silêncio a minha invisibilidade, a garantia de ser apenas uma cabeça peluda flutuando no vazio espaço infinito. Ondas sonoras não se propagam no vácuo.

Nada, eu tenho a certeza de que eles me notam e me amaldiçoam, me rogam pragas, querem que eu tenha câncer, seja impotente, morra atropelado no trânsito, afogado numa tsunami. Eles sabem de mim, porque em silêncio eu assisto os outros clientes chegando, enquanto cortam meus cabelos, os barbeiros fazem questão de cumprimentá-los, todos. E pelo nome próprio, quando não apelido, alguns apelidos desonrosos, “e aí, Cadelão, tudo em cima, vai raspar a cabeleira hoje?”. Mas se sou eu quem chega, eles se olham, até que um toma o fôlego e voluntaria pra me tosquiar. Não, não sei se o Flamengo vai ser campeão no domingo, se vai chover, se todos os políticos são safados.

Um dia eu me emputeço de verdade, ah se eu me emputeço. Se me perguntarem mais uma vez sobre o tempo, eu grito: “XOXOTA CABELUDA PORRA!”

*   *   *

Escrito e postado em lista de e-mails em 2004, revisitado e blogado em 2010. A quem interessar possa: em 2007, finalmente, abandonei o barbeiro. Não tenho mais parceiros fixos, sou grupo de risco há três anos e feliz sem compromissos. O poeta Manoel de Barros diria de mim, se me conhecesse:

Adamastor? Pois que cantava silêncios com suas xoxotas.

As calcinhas fugiam pelas coxas arrodeando os pés feito aranhinhas assustadas.

Mulheres escadas caracol.

A luz no começo do túnel.

E mais não nada a não ser ninho.

O sonho olímpico sobre o gelo…

Suécia, ouro olímpico no curling

…realizado pela equipe sueca de curling, depois de uma final emocionante contra as anfitriãs canadenses. Eu me pergunto, como não se apaixonar por alguém que se chama “Anette Norberg”?

Momentos íntimos

A boa dra.

A boca, como sabemos, assim desprovida de qualquer função poética, carente dos lábios que beijam e descortinam os sorrisos, a boca é tão somente a primeira das duas cavidades corporais que nos dão início e fim às nossas entranhas. As duas cavidades infestadas de gordos micróbios como aqueles humanos que lhes dão de comer. A boca, ao contrário dessa segunda cavidade cujo nome não será dito, repleta de saliva na tentativa (parcialmente bem-sucedida) de manter a população do ecossistema sob controle. Ah, sim, fosse a natureza tão genial quanto dizem, a segunda cavidade também produziria saliva, o que provocaria as quebras da indústria de papel higiênico (salvando do corte umas tantas árvores) e da indústria de lubrificantes.

Assim são os orifícios. Enquanto um apenas regurgita material orgânico, a outra mastiga, tritura, engole e cospe. E se escancara, com gosto de feijão, travestida do sorriso da mulher amada à procura dos beijos inegáveis.

Pois ali onde a poesia se encontra com o feijão estão os dentistas. Aqueles a quem permitimos total acesso ao instrumento dos nossos discursos, beijos, suspiros e arrotos.

Desde as minhas primeiras dentições mantenho a minha predileção por dentistas mulheres. Vocês podem me acusar de tarado e não estarão de todo errados. Mas, como todo sociopata que se preza, racionalizo: é preciso certa delicadeza naquela cadeira que os homens, em tese, não alcançam.

Lembro da Dra. A., a frágil Dra. A. Quando eu cheguei em seu consultório, encolhido em dores, ela me recebeu como uma avó recebe o seu netinho indefeso. Falava baixo e doce. Abri minha boca para a anestesia. E a Dra. A., com suas pinças, uma louva-a-deusa sobre seu macho, murmurou: “se este siso não sair inteiro, vai sair em pedacinhos” e assim o fez, delicadamente estraçalhou o dente encravado. “Mais tarde vai doer um pouquinho”, ela avisou.

Hoje voltei da minha consulta com a Dra. K. Bela mulher, a Dra. K. Parece uma irmã mais velha, ou melhor, a amiga das nossas irmãs mais velhas que sempre cobiçamos mas que faz questão de nos colocar em nossos devidos lugares de meninos. Sim, há mulheres que meninizam os homens, e a Dra. K. é uma dessas mulheres.

A Dra. K. e o seu suave perfume me receberam cordialmente, como sempre. Melódica Dra. K., que em um mesmo parágrafo é capaz de proferir “seu sorriso é lindo” e “se você não ajeitar esses dentes vai perder todos eles”.

E ordena: “abre o bocão”. E a boca sôfrega que anseia imediatamente se desarma em salivas líquidas tão concretas, e a Dra. K. penetra com força na coxia úmida do beijo, obturando as obscuras fantasias. O beijo, amigos, é a véspera do tártaro.

O peso da felicidade

"These bodies look good at every size" - Revista Glamour.

Certa vez, um grande filósofo grego disse: “o essencial é invisível para os olhos”. Não nasci no Peloponeso nem me criei em outro planeta, tampouco conheço da semiótica profunda das misses, mas costumo dizer que o Belo é oculto para os sentidos. Todos os sentidos. Perdoem-me a brutalidade do clichê: o Belo vem de dentro. Precisamos ordenhar o Belo.

Preocupa-me a preocupação das minhas amadas mulheres com supostos excessos de peso. Com a eterna vigilância de suas formas, com essa burca comportamental que se abate sobre elas.

Entristecem-se demais, nossas mulheres, não bastassem as numerosas lágrimas que já lhes infligimos. Entram e saem de dietas, escondem suas formas sob a desculpa das celulites. Pois eu abraço as celulites como quem abraça velhas e queridas amigas, debaixo do chuveiro, entre beijos de língua e corações apertados de felicidade.

Ora, mulher nenhuma tem peso, é a verdade que se esconde por detrás da realidade dos sentidos. O engano ledo é perceberem-se e percebermos somente como seres de matéria, dura matéria a ser tateada.

Amigos, sou um abençoado. Não pelas mulheres por onde tateei, não só por elas. Abençoa-me possuir suas idéias perfumadas, incapturáveis pelos dedos, seqüestradas eternamente pelas minhas memórias e sonhos.

Quanto pesam um suspiro, um sorriso e um beijo? E todos os dias somos alumbrados por suspiros, sorrisos e beijos, a liga intangível e indestrutível da qual as mulheres são realmente forjadas. É o verdadeiro alimento do homem.

Show da virada na gaveta de cuecas

Show da Virada na gaveta das cuecas de Adamastor Goldman

E mais um natal se aproxima, repleto dos velhos trocadilhos por um mundo melhor.

A minha gaveta de cuecas, como sabemos, é um lugar onde a família vem em primeiro lugar. Ou famílias, no caso do seu mais ilustre morador, o grande ator Chumbinho.

Na foto, um animado show de música e dança, direcionado aos duzentos e quatorze filhos bastardos do astro do clássico As Taras do Mini-Vampiro (o título original tem o hífen).

Aos demais amigos do blog, que não participaram dessa confratenização dionísica de gigantescas proporções, meus sinceros desejos de felizes: natal, chanukah, ano novo, e qualquer outro pretexto imaginável pra tomar umas e comer algumas. Até!

Miniconto de natal em dez tweets, por Adamastor Goldman

Noel nasceu no seio de uma família muito pobre, no Pólo Norte.

Caminhava milhares de quilômetros todos os dias para freqüentar uma humilde escola primária da Dinamarca.

E um dia no Pólo Norte, como sabemos, pode durar até 6 meses!

Ajudava no sustento da família, vendendo paninhos de pele de urso polar confeccionados com esmero por sua mãezinha querida.

Seu pai fazia biscates como carpinteiro, consertando trenós. Também possuía diploma de adestrador de renas por correspondência.

Mas eram tempos bicudos como gaivotas do ártico.

Havia vezes em que nada havia para se comer no pequeno iglu, senão sardinhas congeladas, subtraídas de ferozes focas-leopardo.

A magreza de Noel era notável. Seus pais temiam que se perdesse em alguma tempestade de neve, que subisse ao céu feito balão meteorológico.

Pois nada nem ninguém impediu Noel de cumprir a sua sina.

Formou-se em direito, estudou num cursinho e passou em oitavo lugar no concurso público para analista judiciário do TRE da Finlândia.

*** FIM ***

O meu testemunho em 6 capítulos

1

1980 foi um ano de fundação de caráter, o ano zero. Aprendi a ler e a escrever com a Tia Telma, no jardim da minha infância que hoje dá lugar a um prédio, alto, cinza e irrelevante.

Eu já torcia pelo Flamengo em 1980. Quem me conhece sabe dessa minha capacidade estranha de recuperar detalhes mais remotos da minha história, mas a verdade é que não lembro quando foi que comecei a ser Flamengo. Sem exageros, é possível que eu já tenha sido Flamengo ali no momento do aprendizado da primeira palavra. Ali depois de “água”, “mamãe”, “papai”, “zico”. Ou nasci Flamengo antes da compreensão da linguagem dos homens.

O Zico criou uma geração, todos sabemos. Enquanto aprendia a ler e a escrever, eu também era criado pelo Zico.

Para o Zico, nada era impossível.

Então eu me perguntava, e perguntava também aos adultos, na véspera do último jogo contra o Atlético-MG no Maracanã: o Zico vai ganhar o jogo? Estava preocupado, porque do outro lado havia um sujeito chamado Reinaldo que era o centro-avante mais impressionante que uma criança poderia conceber. Se Zico era um deus, Reinaldo não era humano. Não há, creio, uma forma de defini-lo dentro da mitologia dos Homens. Reinaldo era como um borrão fantasmagórico fotografado na memória assombrada.

Foram dias difíceis, finais muito difíceis, o espanto pelo Reinaldo sobrevive até hoje, mas Zico cuidou para que as criancinhas do meu país fossem salvas, obrigado Zico. Obrigado, Nunes.

2

Em 1982, acreditávamos que éramos imbatíveis. Quando o Flamengo perdeu o carioca daquele ano para o Vasco, minha mãe me disse: “precisamos dar uma chance aos outros”. Foi um ato, portanto, magnânimo. Um jogador extraordinário como o Roberto Dinamite merecia seus 15 minutos de glória.

Pouca gente comenta, mas uma grande figura das finais contra o Grêmio foi o (normalmente) discreto goleiro Raul. O Raul, apesar de ídolo (como todos os jogadores daquela época, ídolos), não era, dentro da minha análise de garoto, o melhor goleiro do Brasil. Era o Leão, gremista e campeão na campanha do ano anterior de 1981. Mas o Raul, eu dizia, irradiava caráter como ninguém.

O Grêmio de 81/82 não tinha os melhores jogadores da época (montou um grande time no ano seguinte, 83, na campanha do mundial). O São Paulo, o Guarani, o Atlético-MG tinham os grandes jogadores, além do próprio Flamengo. Mas era um time encardido, muito difícil de ganhar. Como eu disse, um tremendo goleiro, um gringo raçudo (De León) e um centro-avante cagão ao estilo do Nunes (Baltazar, o artilheiro de Deus).

Raul defendeu nossos sonhos nas finais. No jogo decisivo, pela TV, assistimos na família, com vários primos torcendo contra. E de repente, do Zico para o Nunes e a bola para o fundo das redes do Estádio Olímpico lotado num barulho infernal.

E quem torcia contra rendeu-se a inevitabilidade. Era o Flamengo do Zico. Um time assim… inevitável.

3

A diretoria do Flamengo bem que tentou desmontar o time em 1983. Quase conseguiu. O indispensável Tita foi trocado pelo Baltasar, aquele mesmo cagão do ano anterior. Todo mundo lembra do título, era ainda o Flamengo do Zico, mas às vezes esquece que ganhamos com o ataque de Élder, Baltasar e Júlio Cesar. E com Bigu. No começo, o time não engrenava. O técnico Carlos Alberto Torres então sentenciou aos críticos: “meu time é Bigu e mais 10″.

Depois da derrota da Copa de 82, nós não merecíamos outra decepção. O Zico não merecia outra decepção.

E de repente o time embalou. Com Bigu e os outros 10, entre os quais, Zico.

O Santos chegou à final com um time esquisito. Tinha o maluco do Serginho (anos antes ele dera um chute na cara do Leão, quando jogava pelo São Paulo). O Serginho dava medo, muito medo. Não pelo futebol. Mas o Pita e o João Paulo eram bons de bola. E eles tinham um goleiro chamado Marola, que a criançada gostava de repetir o nome sem saber exatamente o significado do apelido.

A grande final do Maracanã não foi televisionada para o Rio, exceto os minutos finais e a festa com invasão do campo e coisa e tal. Escutávamos no rádio, com a televisão ligada. A cada gol, muitos fogos de artifício. E a programação foi interrompida para mostrar o gol do cracaço Adílio, no finzinho, de cabeça, inapelável.

O pôster da Placar saiu com os autógrafos do time campeão. Entre outras tantas assinaturas estelares, como as de Leandro, Junior, Andrade, Adílio e Zico, lá estava: “Bigu”. Grande Bigu.

4

A adolescência se descortinava em 1987, com muito gel new wave, ombreiras e teclados eletrônicos. Um ano em que ameaçavam não fazer o campeonato brasileiro. Como sabemos, os clubes se organizaram e resolveram montar um campeonato forte. A CBF deu de ombros e nascia a Copa União.

No colégio, exclamávamos, assombrados: “só tem clássico!”

A Copa União de 87 foi um campeonato seminal. Embora tivesse havido politicagens para a formação dos 16 times do módulo verde, oficiosamente a “primeira” divisão, o fato novo era a preocupação de ter, finalmente, uma divisão forte , sem os times de bairro que enchiam o nosso saco e muitas vezes quebravam os nossos jogadores mais queridos. E saímos da era do rádio, para um esquema de televisionamento mais organizado e previsível.

O grande Zico andava às voltas com o joelho problemático. O time também demorou pra embalar, e as melhores campanhas do turno e returno de pontos corridos foram do Cruzeiro e do Atlético. Arrancamos, no fim, junto com Zico e um timaço com a mescla maravilhosa entre veteranos e jovens jogadores (que seriam campeões mundiais em 94). Chegamos nas semis embalados. E decidimos o título não na final contra o Inter (o azarão entre os quatro semifinalistas – e nenhum semifinalista de São Paulo, quem diria), mas naquela partida antológica do Renato Gaúcho no Mineirão, em que devolvemos o bom time do Atlético de volta para a fila, um hábito rubro-negro.

E vou dizer a vocês, jovens: em 1987, não havia dúvidas, ao menos entre os maiores clubes da época. O Flamengo fora o grande campeão, de fato e direito.

5

Já era adulto em 1992, cursava faculdade e ia regularmente ao Maracanã, assistir às partidas do mais querido. Com o vovô-garoto Junior de maestro e o Zinho realizando partidas esplendorosas.

Todos sabemos, Junior fez um campeonato sensacional. O fecho de ouro da geração 70/80. Fora Junior, Zinho e bom goleiro Gilmar, nós tínhamos um punhado de jogadores medianos que subiram de produção na hora certa. Suaram o manto como nunca. Deixaram o Flamengo chegar… ele ganhou.

A TV por assinatura engatinhava em 1992. Celulares? Somente para pouquíssimos. Televisionamento para o Rio de Janeiro? Só pelo canal do satélite. Sim, amigos, 1992 ainda era pré-história e não sabíamos.

O Botafogo e o Vasco eram os melhores times do campeonato. Mas Leovegildo Lins da Gama Junior era nosso, só nosso. Com direito a gol olímpico contra o Vasco e aquele golaço de falta contra o Botafogo. Se Zico criou uma geração nos anos 80, Junior com certeza criou outra, nos anos 90.

No último jogo, eu estava lá, no Maracanã. Depois de consumado o título, bebemos algumas cervejas e ligamos para as nossas casas, de orelhão de ficha, para dizer que estava tudo bem, a vida era boa, e que estávamos prontos para nos assumirmos como adultos realizados.

6

17 anos depois… eu vi…

Ronaldo Angelim, em foto do site do Clube de Regatas do Flamengo.

http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1399196-6091,00-POR+RECORDE+CIDADE+ITALIANA+FAZ+CHARUTO+DE+REPOLHO+DE+METROS.html

O menino que não conhecia o Loxas

Que Loxas?

Loxas. Em língua farsi arcaica, significa “o ser iluminado que botou nas suas coxas”. Conhecido através dos milênios, de geração em geração, desde o mítico líder tribal Loxas al-Akhbar, da Mesopotâmia e terrenos alagados da vizinhança. Nenhum parentesco com a igualmente famosa rainha viking Sun-da (“o sol da minha vida que botou na sua bunda”). Mas grafado com “x”, nunca com “ch” (“Lochas” com “ch” significa “o ser analfabeto que não sabe escrever coxas”).

Eu era criança e pensava que todos conheciam o Loxas. Que era assim uma hereditariedade, o Loxas fazia parte do DNA humano. Vejam o Homem de Neanderthal: extinguiu-se porque não conhecia o Loxas. O Homo Sapiens, e possivelmente os golfinhos também, conhece o Loxas e foi essa a diferença que fez com que se saísse vitorioso na seleção natural. Ou vá lá, se você é um adepto do Criacionismo, pode imaginar a serpente perguntar à Eva, entre sorrisos e lingüinhas: “você conhece o Loxas?” E a mulher, depois de confessar total desconhecimento do pecado do Loxas, sofrer a reprimenda terrível do Senhor, sendo expulsa do Paraíso e, portanto, condenada a conhecer o Loxas por toda a eternidade.

Então, eu era criança e pensava que todos conheciam o Loxas. Todos, sem exceção.

Num dia me apareceu na escola outro garoto, um daqueles meio abobados, sabem? Aqueles que, por absoluta ausência de maldade, não estão preparados para uma vida entre seres humanos que conhecem o Loxas. Imaginem o Forrest Gump. Forrest Gump talvez conheça o Loxas. O Loxas deve ter lutado com ele no Vietnã e juntos pescaram camarões na costa da Georgia. Aquele garoto era diferente.

Perguntamos ao menino: “você conhece o Loxas?” E ele, genuinamente curioso: “não, quem é o Loxas?”

Não era a resposta que esperávamos. O normal era responder algo como “é o primo do Sunda, rá”. Era o código informal para que os meninos se reconhecessem, o passe para a entrada no clube da infância que ensinaria, com o tempo, a entrar em muitos outros clubes cruéis e humanos. Os clubes dos que conhecem o Loxas.

O menino que não conhecia o Loxas não jogava bola com a gente. Nem andava de bicicleta. As meninas sequer sabiam o seu nome. Não era bom aluno, também nisso não se destacava. Ninguém sabia da sua vida. Onde morava. Quem eram seus pais. Se tinha irmãos e irmãs. Nada. Chegava sozinho e sozinho pegava o ônibus circular da cidade para voltar à sua casa. E sozinho ele ria, e conversava com seus amigos imaginários, nenhum deles, suponho, se chamava Loxas.

Na minha inocência juvenil, acreditei que meninos que não conheciam o Loxas não existiam. Pelo menos, ninguém além daquele menino em particular. Eu estava enganado. Apesar de raros, eles existem em número suficiente para pontuar em vários episódios da vida de um sujeito comum, como eu, que conhece o Loxas.

Enquanto sujeito comum, recheado de ótimos defeitos e péssimas qualidades, aprendi que os meninos que não conhecem Loxas não são más pessoas. Eles crescem, viram homens que não conhecem o Loxas, se casam com mulheres que não conhecem o Loxas e tem pequeninos bebês que nunca saberão quem é o Loxas. Enfim, é possível confiar em seus caráteres. Mas é absolutamente necessário desconfiar de suas capacidades em lidar com algumas das questões mais triviais da vida. Como alguém que não conhece Loxas é capaz de gerenciar um projeto importante relacionado a uma grande multinacional com um cronograma exigente, uma equipe numerosa e problemática e um orçamento estourado de milhões de dólares?

Amigos, se o indivíduo não conheceu o Loxas na infância, não será na vida adulta que os dois se conhecerão numa festa de bacanas, regada a prossecos importados e uísques doze anos. Vocês imaginam alguém, numa festa dessas, que não conhece o Loxas? Ora, muito provavelmente o próprio Loxas é o anfitrião da noite.

Daí que, depois de algumas decepções, passei a aplicar um justo teste psicotécnico quando da admissão de novos funcionários na minha empresa. Ninguém pode se dar ao luxo de ter alguém na equipe que não conhece o Loxas. É assim: depois que a minha graciosa secretária Srta. Sulamita nos deixa a sós na sala, eu e o candidato, dou uma rápida olhada no seu currículo. Vejo que estudou nas melhores escolas e universidades. Vejo que tem mestrado e um curso no exterior. Percebo que anexou uma foto da família no currículo, na praia, a mesa repleta de cocas light, a mulher de maiô, o filho sorrindo com protetor solar esbranquiçado, o shitzu da família à milanesa. Fotografia no currículo, o que me desperta algumas suspeitas. O candidato está sentado, e sorri para mim, não é um sorriso nervoso, é um sorriso repleto de sinceridade assustadora. Então eu respiro fundo e…

- Sr. Mário, o senhor conhece o Loxas?

Também quero falar sobre pirataria – Parte 2

Amigos, esta é a continuação de um texto que eu escrevi em 2007. Na verdade, é uma continuação que aconteceu antes do narrado no texto de 2007. Pra quem me conhece há pouco tempo e não teve saco de ler as antigas, recomendo que pare uns dois minutos e leia a primeira parte, pra contextualizar. Pois é, dois anos pra continuar uma história com o seu começo, eu sei. Eu não sou mesmo um sujeito linear.

*    *    *

Dick Rambone chega para mais um dia de trabalho

Dick Rambone chega para mais um dia de trabalho duro

E estamos de volta aos maravilhosos anos 80.

A rapaziada se reuniu para uma sessão secreta de videocassete 4 cabeças, fitas seladas, na casa do J.F. Dois filmes foram meticulosamente escolhidos: “Rambone, o Destruidor / Rambone, the Destroyer” (Whett, 1985) e, por ironia não proposital, “Curtindo a vida adoidado / Ferris Bueller’s Day Off” (Hughes, 1986).

Hoje, todo mundo sabe quem é o Ferris Bueller. Mas só alguns conhecem o privilegiado Dick Rambone.

Bom, naquela tarde, nós não conhecíamos nenhum dos dois. Éramos jovens e inocentes, posso afirmar categoricamente, falo por todos.

E você, minha jovem, que não conhece o Dick: o apessoado Rambone teria sido o sucessor do grande John Holmes (se você também não foi apresentada ao inesquecível Big John, recomendo uma leitura ligeira na wikipedia). Talento não lhe faltava. Fez um punhado de filmes e, dizem as más línguas do ramo, aposentou-se precocemente com problemas de ereção. Não devia ser mole levantar aquele peso.

Os amigos e amigas podem não acreditar, mas assistir pornografia, naquele período remotíssimo da História, era um ato com elevado respeito. Esotérico, eu diria. Religioso talvez. Uma experiência. Eu, J.F., R.V. e os outros comparsas (alguns dos quais me lêem neste EXATO momento) abraçados ao sonho, imóveis, mesmerizados. Tocar uma punheta para um filme pornográfico seria profaná-lo.

E Rambone foi, para alguns de nós, o primeiro filme explícito. Ah, o primeiro filme explícito a gente nunca esquece. Não é, nem perto, o melhor filme que assistimos em nossas vidas calejadas. Mas foi o primeiro, inolvidável e único em sua ordem.

O enredo: a doce namorada de Dick Rambone é mantida cativa por um bando de tarados e um caolho. Nosso herói surge no meio da fita para salvá-la, castigando aquelas que aparecem em seu caminho. O final é feliz.

Terminados os pouco mais de 60 minutos da fita (lembrem: nos anos 80 os filmes de sacanagem duravam em média uma hora e dez), restou-nos curtir, sossegadamente e entre talagadas de coca-cola 1 litro em casco de vidro, as aventuras de Ferris e seus amigos maluquetes. A saudosa e querida mãe de J.F. chegou na casa e todos comemos sanduíches de queijo-quente, satisfeitos com nossos segredos.

*    *    *

Quando John Hughes morreu, pensei em Dick Rambone. Indivisíveis, Ferris Bueller e Dick Rambone. Decorridos mais de 20 anos, pensei nos amigos, naquela tarde distante, pensei que eles estariam pensando em Dick Rambone. Pensei que estariam pensando um “CARALHO” uníssono, da mesma forma que pensaram naquela ocasião.

E aí assisti, pela enésima vez, Curtindo a vida adoidado. Passou de novo num canal aí qualquer (você percebe que está velho quando sente o coração partir quando aquela Ferrari despenca o barranco, coisa que não sentia quando era garoto, mais preocupado em reparar na namorada gostosinha de Ferris na piscina).

Pela enésima vez, rendi minhas homenagens. Ao Hughes, John. Ao Huge, Dick.

Em 2016

Dedé SantanaEm 2016, as crianças desse ENEM fraudado vão estar formadas e gerenciando projetos. Cuide bem das nossas crianças, um dia elas podem demitir você.

Por outro lado, em 2016, muitos dos nossos twitteiros mais assíduos estarão perseguindo empregos temporários gerados pelos jogos olímpicos. Utilizarão seus talentos de “social networking” para conseguir algum.

Muitos de nós já terão larga experiência em exames rotineiros da próstata, em 2016.

Eu já disse antes e repito: em 2016, serei um feliz proprietário de um puteiro no Rio de Janeiro. Na Barra. Num aterro onde antes era um pântano, aquele que é hoje o último habitat da perereca de papo amarelo.

*   *   *

A imagem homenageia o trapalhão incompreendido, o rapaz alegre Dedé Santana. Não me consta que tenha sido “trending topic” do twitter algum dia, e suas comunidades do orkut não são das mais populares. Não chega nem perto do mangueirense e carioca da gema Mussum Forevis.

Enfim, Dedé saúda a chegada dos jogos olímpicos à sua (dele) terra natal: Niterói e São Gonçalo 2016! Yes we também créu nessa festa pobre, mariola de Rio Bonito para todos!