O peso da felicidade

"These bodies look good at every size" - Revista Glamour.

Certa vez, um grande filósofo grego disse: “o essencial é invisível para os olhos”. Não nasci no Peloponeso nem me criei em outro planeta, tampouco conheço da semiótica profunda das misses, mas costumo dizer que o Belo é oculto para os sentidos. Todos os sentidos. Perdoem-me a brutalidade do clichê: o Belo vem de dentro. Precisamos ordenhar o Belo.

Preocupa-me a preocupação das minhas amadas mulheres com supostos excessos de peso. Com a eterna vigilância de suas formas, com essa burca comportamental que se abate sobre elas.

Entristecem-se demais, nossas mulheres, não bastassem as numerosas lágrimas que já lhes infligimos. Entram e saem de dietas, escondem suas formas sob a desculpa das celulites. Pois eu abraço as celulites como quem abraça velhas e queridas amigas, debaixo do chuveiro, entre beijos de língua e corações apertados de felicidade.

Ora, mulher nenhuma tem peso, é a verdade que se esconde por detrás da realidade dos sentidos. O engano ledo é perceberem-se e percebermos somente como seres de matéria, dura matéria a ser tateada.

Amigos, sou um abençoado. Não pelas mulheres por onde tateei, não só por elas. Abençoa-me possuir suas idéias perfumadas, incapturáveis pelos dedos, seqüestradas eternamente pelas minhas memórias e sonhos.

Quanto pesam um suspiro, um sorriso e um beijo? E todos os dias somos alumbrados por suspiros, sorrisos e beijos, a liga intangível e indestrutível da qual as mulheres são realmente forjadas. É o verdadeiro alimento do homem.

Show da virada na gaveta de cuecas

Show da Virada na gaveta das cuecas de Adamastor Goldman

E mais um natal se aproxima, repleto dos velhos trocadilhos por um mundo melhor.

A minha gaveta de cuecas, como sabemos, é um lugar onde a família vem em primeiro lugar. Ou famílias, no caso do seu mais ilustre morador, o grande ator Chumbinho.

Na foto, um animado show de música e dança, direcionado aos duzentos e quatorze filhos bastardos do astro do clássico As Taras do Mini-Vampiro (o título original tem o hífen).

Aos demais amigos do blog, que não participaram dessa confratenização dionísica de gigantescas proporções, meus sinceros desejos de felizes: natal, chanukah, ano novo, e qualquer outro pretexto imaginável pra tomar umas e comer algumas. Até!

Miniconto de natal em dez tweets, por Adamastor Goldman

Noel nasceu no seio de uma família muito pobre, no Pólo Norte.

Caminhava milhares de quilômetros todos os dias para freqüentar uma humilde escola primária da Dinamarca.

E um dia no Pólo Norte, como sabemos, pode durar até 6 meses!

Ajudava no sustento da família, vendendo paninhos de pele de urso polar confeccionados com esmero por sua mãezinha querida.

Seu pai fazia biscates como carpinteiro, consertando trenós. Também possuía diploma de adestrador de renas por correspondência.

Mas eram tempos bicudos como gaivotas do ártico.

Havia vezes em que nada havia para se comer no pequeno iglu, senão sardinhas congeladas, subtraídas de ferozes focas-leopardo.

A magreza de Noel era notável. Seus pais temiam que se perdesse em alguma tempestade de neve, que subisse ao céu feito balão meteorológico.

Pois nada nem ninguém impediu Noel de cumprir a sua sina.

Formou-se em direito, estudou num cursinho e passou em oitavo lugar no concurso público para analista judiciário do TRE da Finlândia.

*** FIM ***

O meu testemunho em 6 capítulos

1

1980 foi um ano de fundação de caráter, o ano zero. Aprendi a ler e a escrever com a Tia Telma, no jardim da minha infância que hoje dá lugar a um prédio, alto, cinza e irrelevante.

Eu já torcia pelo Flamengo em 1980. Quem me conhece sabe dessa minha capacidade estranha de recuperar detalhes mais remotos da minha história, mas a verdade é que não lembro quando foi que comecei a ser Flamengo. Sem exageros, é possível que eu já tenha sido Flamengo ali no momento do aprendizado da primeira palavra. Ali depois de “água”, “mamãe”, “papai”, “zico”. Ou nasci Flamengo antes da compreensão da linguagem dos homens.

O Zico criou uma geração, todos sabemos. Enquanto aprendia a ler e a escrever, eu também era criado pelo Zico.

Para o Zico, nada era impossível.

Então eu me perguntava, e perguntava também aos adultos, na véspera do último jogo contra o Atlético-MG no Maracanã: o Zico vai ganhar o jogo? Estava preocupado, porque do outro lado havia um sujeito chamado Reinaldo que era o centro-avante mais impressionante que uma criança poderia conceber. Se Zico era um deus, Reinaldo não era humano. Não há, creio, uma forma de defini-lo dentro da mitologia dos Homens. Reinaldo era como um borrão fantasmagórico fotografado na memória assombrada.

Foram dias difíceis, finais muito difíceis, o espanto pelo Reinaldo sobrevive até hoje, mas Zico cuidou para que as criancinhas do meu país fossem salvas, obrigado Zico. Obrigado, Nunes.

2

Em 1982, acreditávamos que éramos imbatíveis. Quando o Flamengo perdeu o carioca daquele ano para o Vasco, minha mãe me disse: “precisamos dar uma chance aos outros”. Foi um ato, portanto, magnânimo. Um jogador extraordinário como o Roberto Dinamite merecia seus 15 minutos de glória.

Pouca gente comenta, mas uma grande figura das finais contra o Grêmio foi o (normalmente) discreto goleiro Raul. O Raul, apesar de ídolo (como todos os jogadores daquela época, ídolos), não era, dentro da minha análise de garoto, o melhor goleiro do Brasil. Era o Leão, gremista e campeão na campanha do ano anterior de 1981. Mas o Raul, eu dizia, irradiava caráter como ninguém.

O Grêmio de 81/82 não tinha os melhores jogadores da época (montou um grande time no ano seguinte, 83, na campanha do mundial). O São Paulo, o Guarani, o Atlético-MG tinham os grandes jogadores, além do próprio Flamengo. Mas era um time encardido, muito difícil de ganhar. Como eu disse, um tremendo goleiro, um gringo raçudo (De León) e um centro-avante cagão ao estilo do Nunes (Baltazar, o artilheiro de Deus).

Raul defendeu nossos sonhos nas finais. No jogo decisivo, pela TV, assistimos na família, com vários primos torcendo contra. E de repente, do Zico para o Nunes e a bola para o fundo das redes do Estádio Olímpico lotado num barulho infernal.

E quem torcia contra rendeu-se a inevitabilidade. Era o Flamengo do Zico. Um time assim… inevitável.

3

A diretoria do Flamengo bem que tentou desmontar o time em 1983. Quase conseguiu. O indispensável Tita foi trocado pelo Baltasar, aquele mesmo cagão do ano anterior. Todo mundo lembra do título, era ainda o Flamengo do Zico, mas às vezes esquece que ganhamos com o ataque de Élder, Baltasar e Júlio Cesar. E com Bigu. No começo, o time não engrenava. O técnico Carlos Alberto Torres então sentenciou aos críticos: “meu time é Bigu e mais 10″.

Depois da derrota da Copa de 82, nós não merecíamos outra decepção. O Zico não merecia outra decepção.

E de repente o time embalou. Com Bigu e os outros 10, entre os quais, Zico.

O Santos chegou à final com um time esquisito. Tinha o maluco do Serginho (anos antes ele dera um chute na cara do Leão, quando jogava pelo São Paulo). O Serginho dava medo, muito medo. Não pelo futebol. Mas o Pita e o João Paulo eram bons de bola. E eles tinham um goleiro chamado Marola, que a criançada gostava de repetir o nome sem saber exatamente o significado do apelido.

A grande final do Maracanã não foi televisionada para o Rio, exceto os minutos finais e a festa com invasão do campo e coisa e tal. Escutávamos no rádio, com a televisão ligada. A cada gol, muitos fogos de artifício. E a programação foi interrompida para mostrar o gol do cracaço Adílio, no finzinho, de cabeça, inapelável.

O pôster da Placar saiu com os autógrafos do time campeão. Entre outras tantas assinaturas estelares, como as de Leandro, Junior, Andrade, Adílio e Zico, lá estava: “Bigu”. Grande Bigu.

4

A adolescência se descortinava em 1987, com muito gel new wave, ombreiras e teclados eletrônicos. Um ano em que ameaçavam não fazer o campeonato brasileiro. Como sabemos, os clubes se organizaram e resolveram montar um campeonato forte. A CBF deu de ombros e nascia a Copa União.

No colégio, exclamávamos, assombrados: “só tem clássico!”

A Copa União de 87 foi um campeonato seminal. Embora tivesse havido politicagens para a formação dos 16 times do módulo verde, oficiosamente a “primeira” divisão, o fato novo era a preocupação de ter, finalmente, uma divisão forte , sem os times de bairro que enchiam o nosso saco e muitas vezes quebravam os nossos jogadores mais queridos. E saímos da era do rádio, para um esquema de televisionamento mais organizado e previsível.

O grande Zico andava às voltas com o joelho problemático. O time também demorou pra embalar, e as melhores campanhas do turno e returno de pontos corridos foram do Cruzeiro e do Atlético. Arrancamos, no fim, junto com Zico e um timaço com a mescla maravilhosa entre veteranos e jovens jogadores (que seriam campeões mundiais em 94). Chegamos nas semis embalados. E decidimos o título não na final contra o Inter (o azarão entre os quatro semifinalistas – e nenhum semifinalista de São Paulo, quem diria), mas naquela partida antológica do Renato Gaúcho no Mineirão, em que devolvemos o bom time do Atlético de volta para a fila, um hábito rubro-negro.

E vou dizer a vocês, jovens: em 1987, não havia dúvidas, ao menos entre os maiores clubes da época. O Flamengo fora o grande campeão, de fato e direito.

5

Já era adulto em 1992, cursava faculdade e ia regularmente ao Maracanã, assistir às partidas do mais querido. Com o vovô-garoto Junior de maestro e o Zinho realizando partidas esplendorosas.

Todos sabemos, Junior fez um campeonato sensacional. O fecho de ouro da geração 70/80. Fora Junior, Zinho e bom goleiro Gilmar, nós tínhamos um punhado de jogadores medianos que subiram de produção na hora certa. Suaram o manto como nunca. Deixaram o Flamengo chegar… ele ganhou.

A TV por assinatura engatinhava em 1992. Celulares? Somente para pouquíssimos. Televisionamento para o Rio de Janeiro? Só pelo canal do satélite. Sim, amigos, 1992 ainda era pré-história e não sabíamos.

O Botafogo e o Vasco eram os melhores times do campeonato. Mas Leovegildo Lins da Gama Junior era nosso, só nosso. Com direito a gol olímpico contra o Vasco e aquele golaço de falta contra o Botafogo. Se Zico criou uma geração nos anos 80, Junior com certeza criou outra, nos anos 90.

No último jogo, eu estava lá, no Maracanã. Depois de consumado o título, bebemos algumas cervejas e ligamos para as nossas casas, de orelhão de ficha, para dizer que estava tudo bem, a vida era boa, e que estávamos prontos para nos assumirmos como adultos realizados.

6

17 anos depois… eu vi…

Ronaldo Angelim, em foto do site do Clube de Regatas do Flamengo.

http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1399196-6091,00-POR+RECORDE+CIDADE+ITALIANA+FAZ+CHARUTO+DE+REPOLHO+DE+METROS.html

O menino que não conhecia o Loxas

Que Loxas?

Loxas. Em língua farsi arcaica, significa “o ser iluminado que botou nas suas coxas”. Conhecido através dos milênios, de geração em geração, desde o mítico líder tribal Loxas al-Akhbar, da Mesopotâmia e terrenos alagados da vizinhança. Nenhum parentesco com a igualmente famosa rainha viking Sun-da (”o sol da minha vida que botou na sua bunda”). Mas grafado com “x”, nunca com “ch” (”Lochas” com “ch” significa “o ser analfabeto que não sabe escrever coxas”).

Eu era criança e pensava que todos conheciam o Loxas. Que era assim uma hereditariedade, o Loxas fazia parte do DNA humano. Vejam o Homem de Neanderthal: extinguiu-se porque não conhecia o Loxas. O Homo Sapiens, e possivelmente os golfinhos também, conhece o Loxas e foi essa a diferença que fez com que se saísse vitorioso na seleção natural. Ou vá lá, se você é um adepto do Criacionismo, pode imaginar a serpente perguntar à Eva, entre sorrisos e lingüinhas: “você conhece o Loxas?” E a mulher, depois de confessar total desconhecimento do pecado do Loxas, sofrer a reprimenda terrível do Senhor, sendo expulsa do Paraíso e, portanto, condenada a conhecer o Loxas por toda a eternidade.

Então, eu era criança e pensava que todos conheciam o Loxas. Todos, sem exceção.

Num dia me apareceu na escola outro garoto, um daqueles meio abobados, sabem? Aqueles que, por absoluta ausência de maldade, não estão preparados para uma vida entre seres humanos que conhecem o Loxas. Imaginem o Forrest Gump. Forrest Gump talvez conheça o Loxas. O Loxas deve ter lutado com ele no Vietnã e juntos pescaram camarões na costa da Georgia. Aquele garoto era diferente.

Perguntamos ao menino: “você conhece o Loxas?” E ele, genuinamente curioso: “não, quem é o Loxas?”

Não era a resposta que esperávamos. O normal era responder algo como “é o primo do Sunda, rá”. Era o código informal para que os meninos se reconhecessem, o passe para a entrada no clube da infância que ensinaria, com o tempo, a entrar em muitos outros clubes cruéis e humanos. Os clubes dos que conhecem o Loxas.

O menino que não conhecia o Loxas não jogava bola com a gente. Nem andava de bicicleta. As meninas sequer sabiam o seu nome. Não era bom aluno, também nisso não se destacava. Ninguém sabia da sua vida. Onde morava. Quem eram seus pais. Se tinha irmãos e irmãs. Nada. Chegava sozinho e sozinho pegava o ônibus circular da cidade para voltar à sua casa. E sozinho ele ria, e conversava com seus amigos imaginários, nenhum deles, suponho, se chamava Loxas.

Na minha inocência juvenil, acreditei que meninos que não conheciam o Loxas não existiam. Pelo menos, ninguém além daquele menino em particular. Eu estava enganado. Apesar de raros, eles existem em número suficiente para pontuar em vários episódios da vida de um sujeito comum, como eu, que conhece o Loxas.

Enquanto sujeito comum, recheado de ótimos defeitos e péssimas qualidades, aprendi que os meninos que não conhecem Loxas não são más pessoas. Eles crescem, viram homens que não conhecem o Loxas, se casam com mulheres que não conhecem o Loxas e tem pequeninos bebês que nunca saberão quem é o Loxas. Enfim, é possível confiar em seus caráteres. Mas é absolutamente necessário desconfiar de suas capacidades em lidar com algumas das questões mais triviais da vida. Como alguém que não conhece Loxas é capaz de gerenciar um projeto importante relacionado a uma grande multinacional com um cronograma exigente, uma equipe numerosa e problemática e um orçamento estourado de milhões de dólares?

Amigos, se o indivíduo não conheceu o Loxas na infância, não será na vida adulta que os dois se conhecerão numa festa de bacanas, regada a prossecos importados e uísques doze anos. Vocês imaginam alguém, numa festa dessas, que não conhece o Loxas? Ora, muito provavelmente o próprio Loxas é o anfitrião da noite.

Daí que, depois de algumas decepções, passei a aplicar um justo teste psicotécnico quando da admissão de novos funcionários na minha empresa. Ninguém pode se dar ao luxo de ter alguém na equipe que não conhece o Loxas. É assim: depois que a minha graciosa secretária Srta. Sulamita nos deixa a sós na sala, eu e o candidato, dou uma rápida olhada no seu currículo. Vejo que estudou nas melhores escolas e universidades. Vejo que tem mestrado e um curso no exterior. Percebo que anexou uma foto da família no currículo, na praia, a mesa repleta de cocas light, a mulher de maiô, o filho sorrindo com protetor solar esbranquiçado, o shitzu da família à milanesa. Fotografia no currículo, o que me desperta algumas suspeitas. O candidato está sentado, e sorri para mim, não é um sorriso nervoso, é um sorriso repleto de sinceridade assustadora. Então eu respiro fundo e…

- Sr. Mário, o senhor conhece o Loxas?

Também quero falar sobre pirataria – Parte 2

Amigos, esta é a continuação de um texto que eu escrevi em 2007. Na verdade, é uma continuação que aconteceu antes do narrado no texto de 2007. Pra quem me conhece há pouco tempo e não teve saco de ler as antigas, recomendo que pare uns dois minutos e leia a primeira parte, pra contextualizar. Pois é, dois anos pra continuar uma história com o seu começo, eu sei. Eu não sou mesmo um sujeito linear.

*    *    *

Dick Rambone chega para mais um dia de trabalho

Dick Rambone chega para mais um dia de trabalho duro

E estamos de volta aos maravilhosos anos 80.

A rapaziada se reuniu para uma sessão secreta de videocassete 4 cabeças, fitas seladas, na casa do J.F. Dois filmes foram meticulosamente escolhidos: “Rambone, o Destruidor / Rambone, the Destroyer” (Whett, 1985) e, por ironia não proposital, “Curtindo a vida adoidado / Ferris Bueller’s Day Off” (Hughes, 1986).

Hoje, todo mundo sabe quem é o Ferris Bueller. Mas só alguns conhecem o privilegiado Dick Rambone.

Bom, naquela tarde, nós não conhecíamos nenhum dos dois. Éramos jovens e inocentes, posso afirmar categoricamente, falo por todos.

E você, minha jovem, que não conhece o Dick: o apessoado Rambone teria sido o sucessor do grande John Holmes (se você também não foi apresentada ao inesquecível Big John, recomendo uma leitura ligeira na wikipedia). Talento não lhe faltava. Fez um punhado de filmes e, dizem as más línguas do ramo, aposentou-se precocemente com problemas de ereção. Não devia ser mole levantar aquele peso.

Os amigos e amigas podem não acreditar, mas assistir pornografia, naquele período remotíssimo da História, era um ato com elevado respeito. Esotérico, eu diria. Religioso talvez. Uma experiência. Eu, J.F., R.V. e os outros comparsas (alguns dos quais me lêem neste EXATO momento) abraçados ao sonho, imóveis, mesmerizados. Tocar uma punheta para um filme pornográfico seria profaná-lo.

E Rambone foi, para alguns de nós, o primeiro filme explícito. Ah, o primeiro filme explícito a gente nunca esquece. Não é, nem perto, o melhor filme que assistimos em nossas vidas calejadas. Mas foi o primeiro, inolvidável e único em sua ordem.

O enredo: a doce namorada de Dick Rambone é mantida cativa por um bando de tarados e um caolho. Nosso herói surge no meio da fita para salvá-la, castigando aquelas que aparecem em seu caminho. O final é feliz.

Terminados os pouco mais de 60 minutos da fita (lembrem: nos anos 80 os filmes de sacanagem duravam em média uma hora e dez), restou-nos curtir, sossegadamente e entre talagadas de coca-cola 1 litro em casco de vidro, as aventuras de Ferris e seus amigos maluquetes. A saudosa e querida mãe de J.F. chegou na casa e todos comemos sanduíches de queijo-quente, satisfeitos com nossos segredos.

*    *    *

Quando John Hughes morreu, pensei em Dick Rambone. Indivisíveis, Ferris Bueller e Dick Rambone. Decorridos mais de 20 anos, pensei nos amigos, naquela tarde distante, pensei que eles estariam pensando em Dick Rambone. Pensei que estariam pensando um “CARALHO” uníssono, da mesma forma que pensaram naquela ocasião.

E aí assisti, pela enésima vez, Curtindo a vida adoidado. Passou de novo num canal aí qualquer (você percebe que está velho quando sente o coração partir quando aquela Ferrari despenca o barranco, coisa que não sentia quando era garoto, mais preocupado em reparar na namorada gostosinha de Ferris na piscina).

Pela enésima vez, rendi minhas homenagens. Ao Hughes, John. Ao Huge, Dick.

Em 2016

Dedé SantanaEm 2016, as crianças desse ENEM fraudado vão estar formadas e gerenciando projetos. Cuide bem das nossas crianças, um dia elas podem demitir você.

Por outro lado, em 2016, muitos dos nossos twitteiros mais assíduos estarão perseguindo empregos temporários gerados pelos jogos olímpicos. Utilizarão seus talentos de “social networking” para conseguir algum.

Muitos de nós já terão larga experiência em exames rotineiros da próstata, em 2016.

Eu já disse antes e repito: em 2016, serei um feliz proprietário de um puteiro no Rio de Janeiro. Na Barra. Num aterro onde antes era um pântano, aquele que é hoje o último habitat da perereca de papo amarelo.

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A imagem homenageia o trapalhão incompreendido, o rapaz alegre Dedé Santana. Não me consta que tenha sido “trending topic” do twitter algum dia, e suas comunidades do orkut não são das mais populares. Não chega nem perto do mangueirense e carioca da gema Mussum Forevis.

Enfim, Dedé saúda a chegada dos jogos olímpicos à sua (dele) terra natal: Niterói e São Gonçalo 2016! Yes we também créu nessa festa pobre, mariola de Rio Bonito para todos!

Por que ler as mulheres

Sou exigente. Desde a minha idade mais tenra, gosto de apenas dois tipos de mulheres: as que leram Clarice e as que não leram.

Por conta deste meu gosto peculiar, tive que me adaptar para que pudesse conquistá-las. Digo isso porque, desde a minha idade mais tenra, só fui capaz de ler e repercutir alguns autores que as meninas (em geral) não têm saco pra ler. Coisas como Rubem Fonseca, Bukowski, Robert Crumb, Angeli e Laerte povoaram as minhas estantes e dividiram espaço com as fitas da Ginger, do Clint Eastwood e também com o pôster na parede do Flamengo Campeão Mundial de 1981.

Certo que devo ao Laerte, por exemplo, a minha má-formação intelectual do qual tanto me orgulho. Mas certo também é que essa má-formação não me ajuda a conquistar as mulheres. Não lembro de ter comido alguém que tivesse lido “A Noite dos Palhaços Mudos“. Muito menos alguém capaz de perceber uma citação ao meu guru Clint dentro dessa mesma HQ. Por “alguém”, entendam: alguém do sexo feminino, esses maravilhosos seres que possuem a minha preferência mas que preferem coisas que eu não prefiro.

Percebi, portanto, que as minhas leituras e referências cinematográficas setentistas e oitentistas não me levariam muito longe nos anos 90. Aqui interrompo meu raciocínio para aconselhar os mais jovens: o Tarantino é mesmo o máximo, mas o fato de você saber que o uniforme amarelo da Uma Thurman é o mesmo do Bruce Lee não vai te ajudar a comer ninguém. Jovens: vejam Grey’s Anatomy. Entendam a piada da participação especial do Brad Pitt em Friends. Só uns toques, não me levem a mal.

Mas sim, Clarice. Algumas mulheres lêem, relêem e citam, em seus blogs e perfis do orkut, a Clarice.

Decidi que era hora de ler a Clarice. Ou de mentir que eu li a Clarice, não importa. E elogiá-la. A Hora da Estrela. Paixão Segundo G.H. Perto do Coração Selvagem. Laços de Família (nota: fazer a conexão com a novela do Manoel Carlos e se fingir de culto). Clarice, gênia. A perfeita tradução do meu ser imperfeito.

Preciso esconder o fato de que, na idade mais tenra de todas as minhas idades tenras, uma das minhas primeiras leituras marcantes foi A Mulher que Matou os Peixes. Nah. Mesmo Clarice tem limites. Não posso exagerar. Importantes são todos os títulos de livros, sejam da Clarice ou não, que possuam as palavras mágicas “coração” e “paixão”, entre outras. Pessoas que matam não comem ninguém.

E para as mulheres que não lêem Clarice, ora, pra elas (e só pra elas) eu sussuro, entre salivas, que “aquela última crônica da Martha Medeiros estava do cacete, você não achou?”

*     *     *

Vale a pena visitar e ler as mulheres. Copa de Literatura Brasileira 2009. Organizada pelo amigo Lucas Murtinho.

O vencedor está só (e rico, muito rico)

O vencedor está só, de Paulo CoelhoIngmar era um pastor das planícies desoladas da Pérsia. Um dia, ao chegar da guerra, percebeu que suas ovelhas estavam todas mortas. Foi quando a Morte lhe surgiu. E começaram os dois a jogar xadrez.

- Você veio me buscar? – perguntou.

- Eu sempre estive ao seu lado – respondeu a Morte.

Autor desconhecido, fabulário persa.

*     *     *

Pouca gente sabe, moramos durante alguns anos no castelo do Paulo Coelho, na França. Quero dizer, nos arredores do feudo, numa choupana arrumadinha, perto do fosso dos crocodilos. Um lugar bonito.

Paulo nos visitava regularmente. Gostava de jogar xadrez, conversar fiado e exercer seu direito ao defloramento das minhas jovens irmãs. Os minutos (geralmente uns onze) voavam em sua boa companhia, entre risos e lágrimas de todos. Foi um período inesquecível das nossas vidas, sem dúvida. Em troca da moradia, ele nos deixava cuidar da plantação de chicória, e dela tirávamos o sustento. Meu e das minhas nove irmãs. E de uma saudosa prima em segundo grau, Veronika, que passou uma temporada conosco. E da Tia Brida, velha solteirona da família, ela também veio curtir um feriadão na França um ano desses.

A cada solstício de inverno (alguma relação com fertilidade), o grande escritor aparecia ávido de salivas pela nossa partida de xadrez. E filosofávamos sobre a vida, as mulheres, o dinheiro, as mulheres, mansões, mulheres, iates, mulheres. E sobre literatura, é claro. Tenho orgulho de ter dado inúmeros conselhos ao mestre, todos recebidos com o habitual sorriso afável. Todos desconsiderados sumária e polidamente. Ele me dizia, na época: “Adamastor, se eu der ouvidos pra todo mundo… a criação coletiva é uma merda, a arte é solitária na essência”. E eu:  “mas e o Raul?” Ele deu os ombros e confirmou minhas suspeitas.

O fato é que, com o passar dos anos, as virgens foram rareando lá em casa. E olhares cobiçosos começaram a recair sobre as minhas virtudes. Decidi que era a hora de me mudar. Sei lá, pegar um sol na Riviera Francesa. Talvez Cannes, qualquer lugar onde o topless fosse aceito e praticado no seio das famílias de bem. Deixei a choupana pra trás e nunca mais vi o Paulo, sozinho em seu castelo milionário.

Mas ele não se esqueceu de mim. Ontem recebi pelo correio um pacote. Era o seu mais novo livro, “O vencedor está só”. Decerto, uma autobiografia pungente. A triste solidão dos escritores muito ricos e famosos. Estava autografado. A dedicatória dizia algo como “enfiar as batatas goela abaixo de vocês, malditos perdedores”. Ah, o Paulo, e o seu senso de humor de um assassino em série.

Prometi a mim mesmo que leria o novo livro, depois que terminar o Harry Potter. Não vou me arrepender.

*     *     *

Vale a pena visitar e participar! Copa de Literatura Brasileira 2009. Organizada pelo amigo Lucas Murtinho.

Mais sobre o Poder

Eu minto muito. Sou uma graça e pouco confiável, elas dizem. Mas o que vou narrar agora é a mais pura e destilada expressão da verdade. Aconteceu comigo.

Como alguns de vocês sabem, meu trabalho exige constantes viagens internacionais. Assuntos pra esmiuçar, conselhos pra dar e vender (mais vender do que dar), crises para resolver.

Este sou eu, fora deste blog: Mr. Goldman, o sujeito do mundo e que se doa e se vende (mais vender do que doar) ao mundo. O mundo me fez este indivíduo crucial, preciso retribuir.

Numa das minhas missões importantes, uma que preciso manter o sigilo para não comprometer o seu sucesso, fui parar na aprazível Nova Iorque, ali bem ao norte da fabulosa metrópole de Niterói-RJ. Eu e meus colaboradores fomos visitar algumas enormes instituições financeiras em perigo para oferecer (e vender) nossos serviços.

Tirei os vistos das minhas adocicadas estagiárias, Jubiely e Sulamita, e dividimos um apartamento triplo, num hotel aconchegante nas cercanias do Central Park, que é uma espécie de Campo de São Bento lá dos gringos. Um quarto limpinho e livre dos vírus da nova gripe. Era o mês de março e o vento ventava frio pelas ruas.

Deixei as duas ronronando no carpete e fui ao encontro dos meus camaradas. De posse de um copo de café colombiano da Star Bucks, rumamos para uma grande instituição que não posso revelar qual é. Só revelo que não quebrou. Ainda.

Chegamos na sala da reunião e fomos recebidos por vários branquinhos, gordinhos e carequinhas de meia-idade. Todos muito sorridentes, apesar da merda geral. Trocamos cartões e sentamos à mesa para discutir a situação.

Aqui cabe uma reflexão sobre cartões: nos EUA, qualquer Joseph Manuel é vice-presidente de alguma coisa. Ora, o regime é presidencialista, sabemos quem é que manda no pedaço. Todavia existem zilhões de VPs numa empresa americana média. O VP é, basicamente, o nosso querido Aspone tupiniquim. Outra categoria clássica nos cartões gringos e que se tornou comum aqui no Brasil é o cargo “Sócio”. Pensem: o sujeito é o “sócio”.  Qual o seu trabalho na empresa? Ser “sócio”. Eu nem gosto de conversar com os sócios porque sei que o sócio nada mais é do que o estagiário com direito a plano de saúde. Se você é “sócio”, você é “sócio de alguém”. Então, a pessoa importante na cadeia alimentar é justamente o “alguém”, não você. No Brasil, “sócio” é um título comum para designar jovens advogados mal-pagos.

Mas tudo bem. Recebi com um sorriso amistoso os cartões que os branquinhos me passavam: “VP Jr”, “Deputy VP”, “Associate VP”, “VP Manager Associate” e coisas assim. E iniciamos a reunião.

Conversávamos sobre a crise mundial, a economia da China e a economia do Brasil (acreditem, o Brasil tem o que mostrar e, mais incrível, os gringos americanos querem aprender com os mais pobrinhos – nós. Nóis é pobre mas é limpinho, eles agora sabem disso). E aí aconteceu. O Poder se manifestou.

Tinha uns 55 anos, bem ajustados no corpinho de 47 (não resisti à piada manjada, perdão). Pensei depois, ela era a avó que os meus netinhos pediram a Deus. Ela era o Poder. E entrou na sala, sem pedir licença, com dois branquinhos a servir de séquito.

Todos se levantaram das cadeiras. Interessante, pensando bem: todos se levantaram ANTES dela entrar. Escutaram seus passos no corredor e se movimentaram com a antecedência justa para recebê-la de pé. Como quem se perfila para escutar a execução de um Hino Nacional.

Ela não deu cartões. Quem pode, amigos, quem realmente PODE, não distribui esses pedacinhos de papel reciclado. Muitíssimo menos pede o teu cartão de “VP Assistant to Master Kenobi”. Esses títulos não interessam ao Poder. E quem se importou dela ter chegado com a reunião em andamento? Ora, o poder não tem hora pra chegar. Faz o próprio tempo e não usa relógios.

Começou a falar da crise, em seu inglês cristalino. Se falasse em húngaro arcaico, todos compreenderiam. No tempo dos Homens, acredito que discursou por uns 15 minutos, apenas isso. Estabeleceu os pontos do nosso trabalho, como deveria ser conduzido. Sorriu, perfeita, e desapareceu, tão rápido como havia chegado, com o seu séquito particular de branquinhos. E só então lembramos de voltar a respirar.

Tento reconstituir o seu rosto na minha memória. Não consigo fazê-lo. Parece que o Poder provoca uma espécie de efeito “homens de preto”. Um borrão que nos deixou uma mensagem de paz, amor e prosperidade econômica. E a reunião transcorreu agradavelmente até o seu final.

Quando terminamos, minhas adoráveis associadas me aguardavam para patinar no Central Park. Depois passeamos de mãos dadas, paramos na loja da Apple e dei um ipod pra Jubiely e outro pra Sulamita. Elas e eu ficamos felizes.