Também quero falar sobre pirataria – Parte 1

Sim, amigos, deixem-me tomar parte desta efervescente discussão, sobre essa maldita pirataria, que rouba nossos empregos, subtrai nossos impostos, maltrata nossos cachorros e come nossas irmãs (sem camisinha). Como já disse anteriormente, sou prolixo e, para não chateá-los com tanta efervescência, começo num texto aqui para terminar noutro acolá. Mas não deixem de abrilhantar minhas letras com suas opiniões fulgurantes.

Aconteceu nos princípios da História conhecida, nos primórdios da nossa civilização, em 1988.

Eu e dois comparsas realizamos uma operação de guerra: R.V., colega mais abastado do grupo, trouxe o seu videocassete quatro cabeças para minha casa acompanhado de fios e plugues coloridos. Aqueles fios e plugues, adquiridos no videoclube de forma praticamente clandestina (afinal, para quê os fios? “Para copiar as imagens da festa das bodas de vovô e vovó”) conectar-se-iam ao meu novíssimo e virginal videocassete quatro cabeças.

Instalado portanto o aparelho de R.V. ao lado do meu, e ambos os aparelhos devidamente acasalados, teríamos que executar a segunda parte do maquiavélico plano: alugar as fitas no mesmo videoclube em que compráramos os cabos. Nesse ponto é que entrou J.F., nosso amigo já possuidor de barba, apesar da pouca idade. Claro, ninguém diria que J.F. era “de maior”. Mas um proeminente buço era nossa melhor chave para penetrar no sedutor mundo da contravenção.

J.F. estufou o peito (na época não havíamos barrigas) e adentrou o recinto com uma lista de filmes, consensuada depois de muita discussão. Nossos critérios para a seleção dos filme foram: a) filmes que a Globo, a única fonte de mídia audiovisual disponível além do próprio videoclube, supostamente jamais passaria no Super Cine; e b) algum filme estrelado pela Ginger Lynn, Amber Lynn ou Traci Lords. Nem é preciso dizer que filmes com essas atrizes também nunca seriam exibidos no Super Cine da Globo.

R.V., J.F. e eu selecionamos Laranja Mecânica (Kubrick, 1972), Coração Satânico (Parker, 1987), “Miami Spice 2″, estranhamente traduzido para O Tempero da Sedução 2 (Svetlana, 1986) e O Melhor de Ginger (Coletânea, 1988). Na verdade, pretendíamos alugar “A Little Bit of Hanky Panky”, clássico da Svetlana de 1984 que faz parte de sua famosa Tetralogia do Hawaii (os outros são “Pink Lagoon”, “Surrender in Paradise” e “Panty Raid”, todos os quatro filmes estrelados por nossa musa Ginger Lynn). Mas “Hanky Panky” fora alugado por outro punheteiro, o que fez com que J.F. arriscasse uma segura coletânea daquela grande atriz.

Para quem não era nascido à época, as fitas VHS podiam armazenar até seis horas de vídeo, no borrado modo SLP de gravação. Claro, havia outras fitas VHS com poder de armazenamento maior, mas eram mais caras, e só R.V. tinha recursos para comprá-las sem se importar com seu preço salgado. Pois bem, Laranja Mecânica e Coração Satânico fariam parte da primeira fita. A segunda fita contemplaria os nossos proibidões, era o combinado.

Como se tratavam de seis fitas, já que eu, R.V. e J.F. gostaríamos de possuir e assistir nossas preciosidades em casa, levamos um fim de semana inteiro para finalizar o processo de cópia. Muitas pizzas e cocas depois, R.V. e J.F. se retiraram da minha casa satisfeitos, felizes proprietários de quatro filmes piratas.

A curiosidade: foi dito que em uma fita VHS ordinária cabiam até seis horas de vídeo. Uma vez que os filmes de sexo explícito dos anos 80 em pouco ultrapassavam a 1 hora de duração, completei a minha fita dos proibidões com um filme que a Globo exibiu: O Sentido da Vida (Monty Python, 1983).

Eis a explicação porque decorei as músicas, os diálogos e as piadas d’O Sentido da Vida, e porque o tenho na mais alta estima entre todas as comédias já produzidas no cinema. Invariavelmente eu terminava o melhor da Ginger e partia, satisfeito, para o número musical “Every Sperm is Sacred”. Monty Python, putz, são mesmo uns gênios.

Comments (11)

  1. Natalia wrote::

    É, esqueci que pirataria também rima com putaria!

    Saturday, November 10, 2007 at 18:18 #
  2. O louco dos gatos wrote::

    Eu achava que JF já tinha nascido com aquela barriga.

    Sunday, November 11, 2007 at 21:05 #
  3. Abgail Marroné wrote::

    sem comentários

    Monday, November 12, 2007 at 12:08 #
  4. Louco, o J.F. é um personagem de ficção, entende? :)

    Monday, November 12, 2007 at 21:35 #
  5. Andre Blak wrote::

    Eu vi essa fita!
    Eu vi essa fita!
    Umas 3 vezes e na companhia de RV, JF, EE e SR!!!!!!
    The best of Ginger Lynn era foda, mas a Sheri St, Clair em Miami Spice era ainda melhor… Ah, aquela chave de buceta mortal!

    Tuesday, November 13, 2007 at 00:52 #
  6. Rufus Lenhador wrote::

    RL estava assistindo tb…
    Tempos inocentes. A juventude de hoje não faz idéia do que se fazi pra rolar uma bronha!
    hoje em dia qualquer PC busca em poucos minutos o que se demorava eras pra conseguir. Acredito que por isso “Every sperm is sacred”, pois era suado (em ambos os sentidos) se conseguira matéria prima pro enredo.

    Tuesday, November 20, 2007 at 18:26 #
  7. Zecassan wrote::

    Seu Adamastor…
    Fiquei pensando diante desse relato que hoje, nesse mesmo período de tempo que piratiaste meia dúzia de putarias e clássicos (que pra mim têm o mesmíssimo valor!), daria pra baixar uns 187 pornôs e todos os Kubricks e Kusturicas que se tem conhecimento.
    A diferença é que hoje não temos mais pentelhos, só mininas raspadas golfando uma baba grossa de dar dó.
    Pertinente???

    Monday, December 3, 2007 at 15:53 #
  8. Zecassan, muito pertinente. Não dá pra comparar uma suada fitinha cassete com umas 12 músicas piratas contra um mp3 player com 5.000.

    Saturday, December 8, 2007 at 19:35 #
  9. A. wrote::

    Preciso dizer que estou rindo um bocado desses seus personagens.

    Thursday, December 27, 2007 at 01:57 #
  10. Klotz wrote::

    Hilário!

    Friday, January 4, 2008 at 23:36 #
  11. B wrote::

    A ação que se seguiu a este dia foi a edição dos filmes cortando o as “Estórias” e diálogos com constantes envolvidas (estávamos somente interessados nas cenas com as vogais Ha Ha, Hu Hu, hummm e nos diálogos dublados por J.F.), focando somente nas cenas de maior interesse social e hormonal.

    Bons tempos do SLP amarelado e do ajuste de treking (ou traking, não me lembro mais).

    Escutei que hoje em dia, tempos de FullHD e blue ray, as talentosas atrizes reclamam que a excelente qualidade do vídeo esta mostrando as imperfeições de seus corpos..veja lá se isso importava naquele tempo.

    Saudações,
    B.

    Thursday, December 4, 2008 at 21:00 #

Trackback/Pingback (1)

  1. [...] esta é a continuação de um texto que eu escrevi em 2007. Na verdade, é uma continuação que aconteceu antes do narrado no texto de 2007. Pra quem me [...]