Eu minto muito. Sou uma graça e pouco confiável, elas dizem. Mas o que vou narrar agora é a mais pura e destilada expressão da verdade. Aconteceu comigo.
Como alguns de vocês sabem, meu trabalho exige constantes viagens internacionais. Assuntos pra esmiuçar, conselhos pra dar e vender (mais vender do que dar), crises para resolver.
Este sou eu, fora deste blog: Mr. Goldman, o sujeito do mundo e que se doa e se vende (mais vender do que doar) ao mundo. O mundo me fez este indivíduo crucial, preciso retribuir.
Numa das minhas missões importantes, uma que preciso manter o sigilo para não comprometer o seu sucesso, fui parar na aprazível Nova Iorque, ali bem ao norte da fabulosa metrópole de Niterói-RJ. Eu e meus colaboradores fomos visitar algumas enormes instituições financeiras em perigo para oferecer (e vender) nossos serviços.
Tirei os vistos das minhas adocicadas estagiárias, Jubiely e Sulamita, e dividimos um apartamento triplo, num hotel aconchegante nas cercanias do Central Park, que é uma espécie de Campo de São Bento lá dos gringos. Um quarto limpinho e livre dos vírus da nova gripe. Era o mês de março e o vento ventava frio pelas ruas.
Deixei as duas ronronando no carpete e fui ao encontro dos meus camaradas. De posse de um copo de café colombiano da Star Bucks, rumamos para uma grande instituição que não posso revelar qual é. Só revelo que não quebrou. Ainda.
Chegamos na sala da reunião e fomos recebidos por vários branquinhos, gordinhos e carequinhas de meia-idade. Todos muito sorridentes, apesar da merda geral. Trocamos cartões e sentamos à mesa para discutir a situação.
Aqui cabe uma reflexão sobre cartões: nos EUA, qualquer Joseph Manuel é vice-presidente de alguma coisa. Ora, o regime é presidencialista, sabemos quem é que manda no pedaço. Todavia existem zilhões de VPs numa empresa americana média. O VP é, basicamente, o nosso querido Aspone tupiniquim. Outra categoria clássica nos cartões gringos e que se tornou comum aqui no Brasil é o cargo “Sócio”. Pensem: o sujeito é o “sócio”. Qual o seu trabalho na empresa? Ser “sócio”. Eu nem gosto de conversar com os sócios porque sei que o sócio nada mais é do que o estagiário com direito a plano de saúde. Se você é “sócio”, você é “sócio de alguém”. Então, a pessoa importante na cadeia alimentar é justamente o “alguém”, não você. No Brasil, “sócio” é um título comum para designar jovens advogados mal-pagos.
Mas tudo bem. Recebi com um sorriso amistoso os cartões que os branquinhos me passavam: “VP Jr”, “Deputy VP”, “Associate VP”, “VP Manager Associate” e coisas assim. E iniciamos a reunião.
Conversávamos sobre a crise mundial, a economia da China e a economia do Brasil (acreditem, o Brasil tem o que mostrar e, mais incrível, os gringos americanos querem aprender com os mais pobrinhos – nós. Nóis é pobre mas é limpinho, eles agora sabem disso). E aí aconteceu. O Poder se manifestou.
Tinha uns 55 anos, bem ajustados no corpinho de 47 (não resisti à piada manjada, perdão). Pensei depois, ela era a avó que os meus netinhos pediram a Deus. Ela era o Poder. E entrou na sala, sem pedir licença, com dois branquinhos a servir de séquito.
Todos se levantaram das cadeiras. Interessante, pensando bem: todos se levantaram ANTES dela entrar. Escutaram seus passos no corredor e se movimentaram com a antecedência justa para recebê-la de pé. Como quem se perfila para escutar a execução de um Hino Nacional.
Ela não deu cartões. Quem pode, amigos, quem realmente PODE, não distribui esses pedacinhos de papel reciclado. Muitíssimo menos pede o teu cartão de “VP Assistant to Master Kenobi”. Esses títulos não interessam ao Poder. E quem se importou dela ter chegado com a reunião em andamento? Ora, o poder não tem hora pra chegar. Faz o próprio tempo e não usa relógios.
Começou a falar da crise, em seu inglês cristalino. Se falasse em húngaro arcaico, todos compreenderiam. No tempo dos Homens, acredito que discursou por uns 15 minutos, apenas isso. Estabeleceu os pontos do nosso trabalho, como deveria ser conduzido. Sorriu, perfeita, e desapareceu, tão rápido como havia chegado, com o seu séquito particular de branquinhos. E só então lembramos de voltar a respirar.
Tento reconstituir o seu rosto na minha memória. Não consigo fazê-lo. Parece que o Poder provoca uma espécie de efeito “homens de preto”. Um borrão que nos deixou uma mensagem de paz, amor e prosperidade econômica. E a reunião transcorreu agradavelmente até o seu final.
Quando terminamos, minhas adoráveis associadas me aguardavam para patinar no Central Park. Depois passeamos de mãos dadas, paramos na loja da Apple e dei um ipod pra Jubiely e outro pra Sulamita. Elas e eu ficamos felizes.
Comments (9)
Quero muito um cartão de visitas com subtítulo
“VP Assistant to Mr. Kenobi” . Comofunfa?
Srta. D,
é muito fácil conseguir esse cartão de visitas. Faz assim:
primeiro, você tem que nascer em um planeta remoto e governado por lombrigas gigantes. Atenção, o seu nascimento precisa ser concebido sem pecado e sem pai (aham).
Depois de uma infância sofrida como escravo de um mosquito gordo libanês, você precisa ser libertada pelo Mestre Jedi Schindler, o VP Deputy to Master Yoda.
Finalmente, o CEO da parada, aquele que não precisa entregar cartões de visita pra ninguém – Master Yoda HimSelf, precisará aprová-la na frente de todos os outros VPs e designá-la como assistente do Master Kenobi.
Aí você terá o seu cartão, acompanhado de um sabre de luz coloridão.
Para preservar o seu cartão, três conselhos: 1) Fique longe do lado negro da Força; 2) O chanceler Palpatine é o lord Sith e Siths são malvados; e 3) Não espere 20 anos para visitar a sua mãe novamente. Ela ama você e pode estar precisando da sua ajuda.
Espero ter sido útil.
Só me pergunto uma coisa… Jubiely e Sulamita têm cartão de visita?
Tenho um amiga que é uma “jovem” advogada mal paga empregada com carteira assinada, ou seja, nem chegou ao status de “sócia”, pobrezinha!
No cartão dela está escrito: B#@${@?Moares (assim mesmo errado!) B#@${% B!@&. E só.
Você é mesmo uma gracinha. Tudo bem que a importantíssima não deu cartões, mas… também não deu mais nada??
Andre: Jubiely e Sulamita são as minhas “Entertainment VPs”, trocam cartões de visita e não cobram caro por isso.
Amiga: o nome é um detalhe. O PODER não tem um só nome, o PODER está acima de todos os nomes!
Mulherpolvo: deu sim, ela deu uma pequena amostra do PODER. Se tentássemos chegar mais perto e tocá-la, provavelmente seríamos consumidos por Ele, que nem aquele filme do Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (a Arca da Aliança é o lugar onde mulheres como ela guardam a maquiagem).
Efeito do colonizador no Tupiniquim.
Mas imagino que aconteça e vc narrou de forma perfeita.
Sempre quis ter uma idéia, uma impressão de algo fora do país mas não tive ainda essa oportunidade, por isso admirei tanto e fez-me lembrar de Henfil em Nova York, quando deu de cara com a professora de inglês, tá no livro !Diários de um Cucaracha” que deve ter sido escrito e publicado quando vc tava nascendo.
Mas isso parece lance de Nova York, de poder misturado à sensualidade inserida neste e mais ainda se a pessoa (no caso a poderosa) já tem um charme natural, porque minha filha esteve onde os brasileiros vão passear, sudeste USA e ela falou que a mulherada era sem sal e que bonitas eram as latinas que vivem ou passeiam por lá.
Obrigada.
b, obrigado pelo comentário. Alguém já disse, o poder é sensual. E mais sensual ainda, eu acrescento, se emanar de uma mulher.
Seja ela latina, africana, alemã, índia, asiática. Toda mulher tem o seu poder!
(eu já tinha nascido quando o livro do Henfil foi publicado, sou um sujeito experiente)
Adama:
pensei que fosse convidar a poderosa a jantar contigo, deixando seu cartão nas meia liga dela.
bjs.
f.a.