Por que ler as mulheres

Sou exigente. Desde a minha idade mais tenra, gosto de apenas dois tipos de mulheres: as que leram Clarice e as que não leram.

Por conta deste meu gosto peculiar, tive que me adaptar para que pudesse conquistá-las. Digo isso porque, desde a minha idade mais tenra, só fui capaz de ler e repercutir alguns autores que as meninas (em geral) não têm saco pra ler. Coisas como Rubem Fonseca, Bukowski, Robert Crumb, Angeli e Laerte povoaram as minhas estantes e dividiram espaço com as fitas da Ginger, do Clint Eastwood e também com o pôster na parede do Flamengo Campeão Mundial de 1981.

Certo que devo ao Laerte, por exemplo, a minha má-formação intelectual do qual tanto me orgulho. Mas certo também é que essa má-formação não me ajuda a conquistar as mulheres. Não lembro de ter comido alguém que tivesse lido “A Noite dos Palhaços Mudos“. Muito menos alguém capaz de perceber uma citação ao meu guru Clint dentro dessa mesma HQ. Por “alguém”, entendam: alguém do sexo feminino, esses maravilhosos seres que possuem a minha preferência mas que preferem coisas que eu não prefiro.

Percebi, portanto, que as minhas leituras e referências cinematográficas setentistas e oitentistas não me levariam muito longe nos anos 90. Aqui interrompo meu raciocínio para aconselhar os mais jovens: o Tarantino é mesmo o máximo, mas o fato de você saber que o uniforme amarelo da Uma Thurman é o mesmo do Bruce Lee não vai te ajudar a comer ninguém. Jovens: vejam Grey’s Anatomy. Entendam a piada da participação especial do Brad Pitt em Friends. Só uns toques, não me levem a mal.

Mas sim, Clarice. Algumas mulheres lêem, relêem e citam, em seus blogs e perfis do orkut, a Clarice.

Decidi que era hora de ler a Clarice. Ou de mentir que eu li a Clarice, não importa. E elogiá-la. A Hora da Estrela. Paixão Segundo G.H. Perto do Coração Selvagem. Laços de Família (nota: fazer a conexão com a novela do Manoel Carlos e se fingir de culto). Clarice, gênia. A perfeita tradução do meu ser imperfeito.

Preciso esconder o fato de que, na idade mais tenra de todas as minhas idades tenras, uma das minhas primeiras leituras marcantes foi A Mulher que Matou os Peixes. Nah. Mesmo Clarice tem limites. Não posso exagerar. Importantes são todos os títulos de livros, sejam da Clarice ou não, que possuam as palavras mágicas “coração” e “paixão”, entre outras. Pessoas que matam não comem ninguém.

E para as mulheres que não lêem Clarice, ora, pra elas (e só pra elas) eu sussuro, entre salivas, que “aquela última crônica da Martha Medeiros estava do cacete, você não achou?”

*     *     *

Vale a pena visitar e ler as mulheres. Copa de Literatura Brasileira 2009. Organizada pelo amigo Lucas Murtinho.

Comments (6)

  1. Clarice Saadi wrote::

    Ah mas faltou citar “Uma aprendizagem – ou o livro dos prazeres” oras!

    Foi porque leu e entendeu o recado que Lucas me conquistou ;p

    Wednesday, September 9, 2009 at 22:39 #
  2. Esse Lucas é mesmo um menino muito esperto!

    Thursday, September 10, 2009 at 12:58 #
  3. Nordestina wrote::

    E como ficam as mulheres que lêem pouco Clarice? Porque o que me enteressa de fato é o: finge que me engana que eu gosto e te chamo de gênio!

    Thursday, September 10, 2009 at 16:05 #
  4. Andre Blak wrote::

    Laerte… Grande Laerte! Melhor do que os palhaços era aquela cidade dos homens dedo… Quanto a Clarice, a gringa mais brasucamente foda que a lietarura nacional produziu. Já a Marta Medeiros… essa é um tremendo pé no saco. Só pra mulézinha mesmo.

    Friday, September 11, 2009 at 18:01 #
  5. Abgail wrote::

    “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
    Clarice…

    Friday, September 25, 2009 at 15:57 #
  6. Amiga da Abgail wrote::

    Eu prefiro aquela: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
    Cla

    Friday, September 25, 2009 at 16:00 #