O meu testemunho em 6 capítulos

1

1980 foi um ano de fundação de caráter, o ano zero. Aprendi a ler e a escrever com a Tia Telma, no jardim da minha infância que hoje dá lugar a um prédio, alto, cinza e irrelevante.

Eu já torcia pelo Flamengo em 1980. Quem me conhece sabe dessa minha capacidade estranha de recuperar detalhes mais remotos da minha história, mas a verdade é que não lembro quando foi que comecei a ser Flamengo. Sem exageros, é possível que eu já tenha sido Flamengo ali no momento do aprendizado da primeira palavra. Ali depois de “água”, “mamãe”, “papai”, “zico”. Ou nasci Flamengo antes da compreensão da linguagem dos homens.

O Zico criou uma geração, todos sabemos. Enquanto aprendia a ler e a escrever, eu também era criado pelo Zico.

Para o Zico, nada era impossível.

Então eu me perguntava, e perguntava também aos adultos, na véspera do último jogo contra o Atlético-MG no Maracanã: o Zico vai ganhar o jogo? Estava preocupado, porque do outro lado havia um sujeito chamado Reinaldo que era o centro-avante mais impressionante que uma criança poderia conceber. Se Zico era um deus, Reinaldo não era humano. Não há, creio, uma forma de defini-lo dentro da mitologia dos Homens. Reinaldo era como um borrão fantasmagórico fotografado na memória assombrada.

Foram dias difíceis, finais muito difíceis, o espanto pelo Reinaldo sobrevive até hoje, mas Zico cuidou para que as criancinhas do meu país fossem salvas, obrigado Zico. Obrigado, Nunes.

2

Em 1982, acreditávamos que éramos imbatíveis. Quando o Flamengo perdeu o carioca daquele ano para o Vasco, minha mãe me disse: “precisamos dar uma chance aos outros”. Foi um ato, portanto, magnânimo. Um jogador extraordinário como o Roberto Dinamite merecia seus 15 minutos de glória.

Pouca gente comenta, mas uma grande figura das finais contra o Grêmio foi o (normalmente) discreto goleiro Raul. O Raul, apesar de ídolo (como todos os jogadores daquela época, ídolos), não era, dentro da minha análise de garoto, o melhor goleiro do Brasil. Era o Leão, gremista e campeão na campanha do ano anterior de 1981. Mas o Raul, eu dizia, irradiava caráter como ninguém.

O Grêmio de 81/82 não tinha os melhores jogadores da época (montou um grande time no ano seguinte, 83, na campanha do mundial). O São Paulo, o Guarani, o Atlético-MG tinham os grandes jogadores, além do próprio Flamengo. Mas era um time encardido, muito difícil de ganhar. Como eu disse, um tremendo goleiro, um gringo raçudo (De León) e um centro-avante cagão ao estilo do Nunes (Baltazar, o artilheiro de Deus).

Raul defendeu nossos sonhos nas finais. No jogo decisivo, pela TV, assistimos na família, com vários primos torcendo contra. E de repente, do Zico para o Nunes e a bola para o fundo das redes do Estádio Olímpico lotado num barulho infernal.

E quem torcia contra rendeu-se a inevitabilidade. Era o Flamengo do Zico. Um time assim… inevitável.

3

A diretoria do Flamengo bem que tentou desmontar o time em 1983. Quase conseguiu. O indispensável Tita foi trocado pelo Baltasar, aquele mesmo cagão do ano anterior. Todo mundo lembra do título, era ainda o Flamengo do Zico, mas às vezes esquece que ganhamos com o ataque de Élder, Baltasar e Júlio Cesar. E com Bigu. No começo, o time não engrenava. O técnico Carlos Alberto Torres então sentenciou aos críticos: “meu time é Bigu e mais 10″.

Depois da derrota da Copa de 82, nós não merecíamos outra decepção. O Zico não merecia outra decepção.

E de repente o time embalou. Com Bigu e os outros 10, entre os quais, Zico.

O Santos chegou à final com um time esquisito. Tinha o maluco do Serginho (anos antes ele dera um chute na cara do Leão, quando jogava pelo São Paulo). O Serginho dava medo, muito medo. Não pelo futebol. Mas o Pita e o João Paulo eram bons de bola. E eles tinham um goleiro chamado Marola, que a criançada gostava de repetir o nome sem saber exatamente o significado do apelido.

A grande final do Maracanã não foi televisionada para o Rio, exceto os minutos finais e a festa com invasão do campo e coisa e tal. Escutávamos no rádio, com a televisão ligada. A cada gol, muitos fogos de artifício. E a programação foi interrompida para mostrar o gol do cracaço Adílio, no finzinho, de cabeça, inapelável.

O pôster da Placar saiu com os autógrafos do time campeão. Entre outras tantas assinaturas estelares, como as de Leandro, Junior, Andrade, Adílio e Zico, lá estava: “Bigu”. Grande Bigu.

4

A adolescência se descortinava em 1987, com muito gel new wave, ombreiras e teclados eletrônicos. Um ano em que ameaçavam não fazer o campeonato brasileiro. Como sabemos, os clubes se organizaram e resolveram montar um campeonato forte. A CBF deu de ombros e nascia a Copa União.

No colégio, exclamávamos, assombrados: “só tem clássico!”

A Copa União de 87 foi um campeonato seminal. Embora tivesse havido politicagens para a formação dos 16 times do módulo verde, oficiosamente a “primeira” divisão, o fato novo era a preocupação de ter, finalmente, uma divisão forte , sem os times de bairro que enchiam o nosso saco e muitas vezes quebravam os nossos jogadores mais queridos. E saímos da era do rádio, para um esquema de televisionamento mais organizado e previsível.

O grande Zico andava às voltas com o joelho problemático. O time também demorou pra embalar, e as melhores campanhas do turno e returno de pontos corridos foram do Cruzeiro e do Atlético. Arrancamos, no fim, junto com Zico e um timaço com a mescla maravilhosa entre veteranos e jovens jogadores (que seriam campeões mundiais em 94). Chegamos nas semis embalados. E decidimos o título não na final contra o Inter (o azarão entre os quatro semifinalistas – e nenhum semifinalista de São Paulo, quem diria), mas naquela partida antológica do Renato Gaúcho no Mineirão, em que devolvemos o bom time do Atlético de volta para a fila, um hábito rubro-negro.

E vou dizer a vocês, jovens: em 1987, não havia dúvidas, ao menos entre os maiores clubes da época. O Flamengo fora o grande campeão, de fato e direito.

5

Já era adulto em 1992, cursava faculdade e ia regularmente ao Maracanã, assistir às partidas do mais querido. Com o vovô-garoto Junior de maestro e o Zinho realizando partidas esplendorosas.

Todos sabemos, Junior fez um campeonato sensacional. O fecho de ouro da geração 70/80. Fora Junior, Zinho e bom goleiro Gilmar, nós tínhamos um punhado de jogadores medianos que subiram de produção na hora certa. Suaram o manto como nunca. Deixaram o Flamengo chegar… ele ganhou.

A TV por assinatura engatinhava em 1992. Celulares? Somente para pouquíssimos. Televisionamento para o Rio de Janeiro? Só pelo canal do satélite. Sim, amigos, 1992 ainda era pré-história e não sabíamos.

O Botafogo e o Vasco eram os melhores times do campeonato. Mas Leovegildo Lins da Gama Junior era nosso, só nosso. Com direito a gol olímpico contra o Vasco e aquele golaço de falta contra o Botafogo. Se Zico criou uma geração nos anos 80, Junior com certeza criou outra, nos anos 90.

No último jogo, eu estava lá, no Maracanã. Depois de consumado o título, bebemos algumas cervejas e ligamos para as nossas casas, de orelhão de ficha, para dizer que estava tudo bem, a vida era boa, e que estávamos prontos para nos assumirmos como adultos realizados.

6

17 anos depois… eu vi…

Ronaldo Angelim, em foto do site do Clube de Regatas do Flamengo.

http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1399196-6091,00-POR+RECORDE+CIDADE+ITALIANA+FAZ+CHARUTO+DE+REPOLHO+DE+METROS.html

Comments (6)

  1. Minha seleção do Hexa (80-09):

    Bruno, Jorginho, Leandro, Aldair e Junior; Andrade, Adilio, Petkovic e Zico; Bebeto e Adriano.

    E é isso :)

    Monday, December 7, 2009 at 20:50 #
  2. Nat wrote::

    Eu certamente já nasci flamenguista e campeã, em 82. Mas ver mesmo, só o de 92 e, mesmo assim, só me lembro da final, na casa do meu tio e a gente, um bando de crianças, saindo pra casa do vizinho onde estava a torcida do Botafogo… Certamente ainda maior emoção do que a de ontem…

    Monday, December 7, 2009 at 21:27 #
  3. Sarah O. wrote::

    só discordo do Bruno, mas sua seleção está impecável. :)

    Monday, December 7, 2009 at 23:32 #
  4. Andre Blak wrote::

    Juro que me preocupei em não ver um tópico flamenguista na segunda-feira. Ainda bem que eu estava errado… Saudações eternamente rubro negras, cumpadre Adama!

    Tuesday, December 8, 2009 at 08:56 #
  5. Saudações rubro-negras a todos.

    Sarah, alguma indicação para o lugar do Bruno? Confesso que foi difícil deixar de fora os meus estimados Raul e Zé Carlos, mas acho que, friamente, o Bruno é mais goleiro do que eles. E, infelizmente, o Julio Cesar não foi campeão brasileiro com o mengão…

    De todo modo, o único campeão de 92 que está na minha seleção é o Junior. Acho que o time de 09 é melhor do que o de 92.

    Abs e SRN.

    Tuesday, December 8, 2009 at 12:15 #
  6. A propósito, para os não-futebolistas e não-rubro-negros: em breve, outros textos de volta à temática predominante do blog, ou seja, voltaremos à boa e velha sacanagem poética. Grato pela atenção.

    Tuesday, December 8, 2009 at 12:18 #