Momentos íntimos

A boa dra.

A boca, como sabemos, assim desprovida de qualquer função poética, carente dos lábios que beijam e descortinam os sorrisos, a boca é tão somente a primeira das duas cavidades corporais que nos dão início e fim às nossas entranhas. As duas cavidades infestadas de gordos micróbios como aqueles humanos que lhes dão de comer. A boca, ao contrário dessa segunda cavidade cujo nome não será dito, repleta de saliva na tentativa (parcialmente bem-sucedida) de manter a população do ecossistema sob controle. Ah, sim, fosse a natureza tão genial quanto dizem, a segunda cavidade também produziria saliva, o que provocaria as quebras da indústria de papel higiênico (salvando do corte umas tantas árvores) e da indústria de lubrificantes.

Assim são os orifícios. Enquanto um apenas regurgita material orgânico, a outra mastiga, tritura, engole e cospe. E se escancara, com gosto de feijão, travestida do sorriso da mulher amada à procura dos beijos inegáveis.

Pois ali onde a poesia se encontra com o feijão estão os dentistas. Aqueles a quem permitimos total acesso ao instrumento dos nossos discursos, beijos, suspiros e arrotos.

Desde as minhas primeiras dentições mantenho a minha predileção por dentistas mulheres. Vocês podem me acusar de tarado e não estarão de todo errados. Mas, como todo sociopata que se preza, racionalizo: é preciso certa delicadeza naquela cadeira que os homens, em tese, não alcançam.

Lembro da Dra. A., a frágil Dra. A. Quando eu cheguei em seu consultório, encolhido em dores, ela me recebeu como uma avó recebe o seu netinho indefeso. Falava baixo e doce. Abri minha boca para a anestesia. E a Dra. A., com suas pinças, uma louva-a-deusa sobre seu macho, murmurou: “se este siso não sair inteiro, vai sair em pedacinhos” e assim o fez, delicadamente estraçalhou o dente encravado. “Mais tarde vai doer um pouquinho”, ela avisou.

Hoje voltei da minha consulta com a Dra. K. Bela mulher, a Dra. K. Parece uma irmã mais velha, ou melhor, a amiga das nossas irmãs mais velhas que sempre cobiçamos mas que faz questão de nos colocar em nossos devidos lugares de meninos. Sim, há mulheres que meninizam os homens, e a Dra. K. é uma dessas mulheres.

A Dra. K. e o seu suave perfume me receberam cordialmente, como sempre. Melódica Dra. K., que em um mesmo parágrafo é capaz de proferir “seu sorriso é lindo” e “se você não ajeitar esses dentes vai perder todos eles”.

E ordena: “abre o bocão”. E a boca sôfrega que anseia imediatamente se desarma em salivas líquidas tão concretas, e a Dra. K. penetra com força na coxia úmida do beijo, obturando as obscuras fantasias. O beijo, amigos, é a véspera do tártaro.

Comments (8)

  1. Andre Blak wrote::

    “O beijo, amigos, é a véspera do tártaro.”
    Nem Nelson Rodrigues proferiria tamanha genialidade.

    Tuesday, February 23, 2010 at 09:45 #
  2. Obrigado! Créditos também ao Augusto dos Anjos, pela inspiração.

    Tuesday, February 23, 2010 at 11:16 #
  3. floraalma wrote::

    Adama:

    Fiquei deveras emocionada com o belo texto e confesso( fica entre nós…)apaixonei-me pelo meu dentista casado, oque dava mais lubrificação ao objeto, tão bem citado, por vc. Parabéns. O que devo de fazer nas próximas consultas?
    bjsaudosos, sempre sua,
    f.a.

    Thursday, February 25, 2010 at 17:30 #
  4. Nat wrote::

    Confesso que dessa vez você se superou… A frase é ótima e, suspeito, o texto todo aconteceu por causa dela ;)

    Friday, March 5, 2010 at 08:54 #
  5. Mulherpolvo wrote::

    Mais rodrigueano, impossível. Amei!!
    PS: a sua sorte é não precisar de ginecologista… mas o azar é nosso, daria bons textos!!

    Wednesday, March 10, 2010 at 10:05 #
  6. Querida Flora Alma: meu conselho é não se envolva com o seu dentista, casado ou não. Onde se obtura não se beija.

    Nat: obrigado! Na verdade, a frase surgiu no meio do processo de elaboração do texto, eu já tinha a idéia e parágrafos rascunhados. A frase derivou do texto e não o contrário. Mas quando surgiu, vi que tinha que ser o fecho, e vi que o título tinha que ser este “Momentos Íntimos”. Enfim, quem escreve sabe que o processo não é exatamente linear. E, no meu caso em particular, a idéia geral vem antes das frases de efeito, embora as frases de efeito, quando surgem, acabam por conduzir o registro da idéia geral e de certa forma organizam o início, meio e fim. As idéias se alimentam, é por aí…

    Mulherpolvo: obrigado! Ginecologista e dentista são profissões congêneres, faz parte do trabalho deles transformar poesia em biologia. Por causa disso, nunca quis ser dentista nem ginecologista. A teoria não é tão legal quanto a leiga prática. :)

    Wednesday, March 10, 2010 at 20:14 #
  7. floraalma wrote::

    Querido Adama:

    Agradeço comovida o sábio conselho,meu motorista particular, sempre diz que” onde se ganha o pão, não se come a carne.”
    Mas, que é um sofrimento atroz, lá isso é, concorda?
    bjsaudosos, sempre sua,
    f.a.

    Saturday, March 13, 2010 at 10:11 #
  8. Elton wrote::

    Texto excelente, gostei muito. Vim do blog da Ana Mangeon..

    Thursday, February 24, 2011 at 14:03 #