Barbeiros

Não gosto de cortar cabelo no barbeiro.

Porque não gosto de conversar com os barbeiros.

Odeio a artificialidade da palavra iminente, o papinho de futebol enviesado (os barbeiros não costumam entender porra nenhuma de futebol, pelo menos, o futebol que eles pensam não é o mesmo que eu penso), ou ainda as habituais reclamações sobre o tempo, os tsunamis, os terremotos, a vida, o universo e tudo mais. Não converso por conversar, estou longe de possuir este rasgo de humanidade, essa ânsia de comunicar qualquer coisa, ainda que seja nada.

E freqüento o mesmo barbeiro deve ter uns vinte anos. Os mesmos caras. Lembro da primeira vez que fui, era criança mas já não tinha o menor saco em relação a barbeiros falantes. Então ele, o barbeiro, entre tesouradas, chegou ali no meu ouvido e perguntou baixinho pra ninguém escutar: “você gosta de xoxota raspadinha ou cabeluda?”

O sujeito ainda trabalha lá, virou o século cortando cabelos e barbas, puxando os assuntos variados de sempre.

Agora eles falam do trânsito, dos estacionamentos, falam também bastante sobre, ah, não sei, não presto atenção. Fazem piadinhas, eu sorrio pro espelho, só pelo psicopático vestígio de educação.

Vinte anos, eles devem pensar, eu vi esse moleque crescer, ganhar barba, até uns fios brancos ele já tem, e hoje nem sei o nome dele, onde mora, o que ele faz, qual time de futebol que ele torce. Esse moleque é antipático pra caralho, a gente querendo ser legal, ainda corto a orelha desse filha da puta.

Eu penso, quem sabe já consegui o sucesso de não ser notado? Quem sabe quem não conversa não existe, na lógica quase-cartesiana dos animais falantes? Eu gostaria que fosse assim, o meu silêncio a minha invisibilidade, a garantia de ser apenas uma cabeça peluda flutuando no vazio espaço infinito. Ondas sonoras não se propagam no vácuo.

Nada, eu tenho a certeza de que eles me notam e me amaldiçoam, me rogam pragas, querem que eu tenha câncer, seja impotente, morra atropelado no trânsito, afogado numa tsunami. Eles sabem de mim, porque em silêncio eu assisto os outros clientes chegando, enquanto cortam meus cabelos, os barbeiros fazem questão de cumprimentá-los, todos. E pelo nome próprio, quando não apelido, alguns apelidos desonrosos, “e aí, Cadelão, tudo em cima, vai raspar a cabeleira hoje?”. Mas se sou eu quem chega, eles se olham, até que um toma o fôlego e voluntaria pra me tosquiar. Não, não sei se o Flamengo vai ser campeão no domingo, se vai chover, se todos os políticos são safados.

Um dia eu me emputeço de verdade, ah se eu me emputeço. Se me perguntarem mais uma vez sobre o tempo, eu grito: “XOXOTA CABELUDA PORRA!”

*   *   *

Escrito e postado em lista de e-mails em 2004, revisitado e blogado em 2010. A quem interessar possa: em 2007, finalmente, abandonei o barbeiro. Não tenho mais parceiros fixos, sou grupo de risco há três anos e feliz sem compromissos. O poeta Manoel de Barros diria de mim, se me conhecesse:

Adamastor? Pois que cantava silêncios com suas xoxotas.

As calcinhas fugiam pelas coxas arrodeando os pés feito aranhinhas assustadas.

Mulheres escadas caracol.

A luz no começo do túnel.

E mais não nada a não ser ninho.

Comments (7)

  1. floraalma wrote::

    querido Adama:
    Permita-me aconselha-lo a conversar um pouco mais com aquele barbeiro que o conhece,sabe das nuances de seu cabelo.Eles(barbeiros)sabem do cotidano, escandalos, etc.o que torna o corte mais interessante.
    Quanto a improvavel pergunta, sobre o tipo de pelagem da “coisa”, acho fruto de sua fértil imaginação. Eu, p.ex.prefiro moderação,aparado, sem ser príncipe danilo ou trote universitário.
    sempre sua,
    f.a.

    Friday, May 14, 2010 at 16:40 #
  2. Prezada floraalma,

    suspeito que você é do tipo que gosta de conversar com barbeiros, cabelereiros, padeiros e outros “eiros” quais sejam. Quem sou eu para criticá-la. Eu, entretanto, jamais encontrei um barbeiro que soubesse de algo cotidiano ou escandaloso que eu não pudesse encontrar no silêncio da leitura da revista Caras que me é oferecida nesses locais.

    Enfim, quando se trata de cabelos, prefiro a meditação.

    Quanto a improvável porém verídica pergunta, é preciso contextualizar historicamente o “cabeluda”, que varia com o tempo, diferente do “careca”, que significa a mesma coisa através dos milênios. Mas uma coisa eu digo: é preciso haver ninho para que o pássaro encontre calor e abrigo.

    Friday, May 14, 2010 at 20:53 #
  3. Monsores wrote::

    Adama,

    Seu post, além de me trazer boas risadas, me fez lembrar de um cabelereiro que se achava muito intimo porque cortava meu cabelo desde quando eu ainda precisava daquelas almofadas pra ficar na altura do espelho.

    Até que um dia ele se tornou evangélico e a cada tesourada era um “Aleluia!” ou um “Amém!”. Depois de algumas vezes – eu insistia porque sou assim, um jovem com hábitos de velho, estava passando o jornal na TV e a notícia da vez é que haviam descoberto o fóssil de um grande dinossauro. Foi quando ele me disse: “Deus não criou os dinossauros. Que mentirada, né? Como eles conseguem enganar tanta gente?”.

    Como não se contesta um fanático com uma tesoura tão próxima do seu pescoço, apenas assenti com a cabeça e nunca mais voltei.

    Espero que tenha muito mais desses posts guardados num backup de e-mail.

    Abração!

    Saturday, May 15, 2010 at 12:57 #
  4. Monsores, o “evento do tempo” mais marcante dos últimos anos foi, provavelmente, a tsunami na Ásia. Assunto amplamente debatido no barbeiro, em fins de 2004. Todas as vertentes opinavam (era natal/reveillon de 2004), então havia os religiosos, os sismólogos, os geógrafos, enfim, todo o saber da humanidade ali representado em meia dúzia de barbeiros.

    Então um deles se dirige a mim, dizendo, “que tristeza, todas essas mortes, absurdo, etc, Deus, etc”. Eu respondi: “é.” Aí o cara ficou me olhando como se eu fosse um psicopata (acho que ele não está tão errado, afinal). Deve ter pensado, morre gente pra caralho e esse filha da puta só é capaz de dizer “é”?

    Quanto aos ossos dos dinossauros, todos sabemos que foram enterrados por seres extraterrestres, nada mais que isso, o Guia do Mochileiro das Galáxias já nos revelou a verdade sobre a vida, o universo e tudo mais.

    Abraços!

    Saturday, May 15, 2010 at 13:29 #
  5. A propósito: cortei cabelo com um barbeiro vascaíno, durante anos. Sobrevivi.

    Saturday, May 15, 2010 at 14:38 #
  6. floraalma wrote::

    Dileto Adama:
    Realmente eu gosto de me comunicar com aqueles que me vendem o pão,me cortam a vastíssima cabeleira, etc. quanto a estes últimos, obtenho sigilosas informações políticas/outras p.ex.que não estão no gibi, etc.prefiro o silencio( aí não respeitado!)quando estou na esteira,cujos humanos só se movimentam com as tristes notícias´ou ruídos dilacerantes… aí sim, quando consigo o silencio, penso na vida.
    Realmente o ninho é o mais importante, concordo.
    eternamente sua,
    f.a.

    Saturday, May 22, 2010 at 11:57 #
  7. amadoras wrote::

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    Tuesday, August 5, 2014 at 23:26 #