Por que ler as mulheres

Sou exigente. Desde a minha idade mais tenra, gosto de apenas dois tipos de mulheres: as que leram Clarice e as que não leram.

Por conta deste meu gosto peculiar, tive que me adaptar para que pudesse conquistá-las. Digo isso porque, desde a minha idade mais tenra, só fui capaz de ler e repercutir alguns autores que as meninas (em geral) não têm saco pra ler. Coisas como Rubem Fonseca, Bukowski, Robert Crumb, Angeli e Laerte povoaram as minhas estantes e dividiram espaço com as fitas da Ginger, do Clint Eastwood e também com o pôster na parede do Flamengo Campeão Mundial de 1981.

Certo que devo ao Laerte, por exemplo, a minha má-formação intelectual do qual tanto me orgulho. Mas certo também é que essa má-formação não me ajuda a conquistar as mulheres. Não lembro de ter comido alguém que tivesse lido “A Noite dos Palhaços Mudos“. Muito menos alguém capaz de perceber uma citação ao meu guru Clint dentro dessa mesma HQ. Por “alguém”, entendam: alguém do sexo feminino, esses maravilhosos seres que possuem a minha preferência mas que preferem coisas que eu não prefiro.

Percebi, portanto, que as minhas leituras e referências cinematográficas setentistas e oitentistas não me levariam muito longe nos anos 90. Aqui interrompo meu raciocínio para aconselhar os mais jovens: o Tarantino é mesmo o máximo, mas o fato de você saber que o uniforme amarelo da Uma Thurman é o mesmo do Bruce Lee não vai te ajudar a comer ninguém. Jovens: vejam Grey’s Anatomy. Entendam a piada da participação especial do Brad Pitt em Friends. Só uns toques, não me levem a mal.

Mas sim, Clarice. Algumas mulheres lêem, relêem e citam, em seus blogs e perfis do orkut, a Clarice.

Decidi que era hora de ler a Clarice. Ou de mentir que eu li a Clarice, não importa. E elogiá-la. A Hora da Estrela. Paixão Segundo G.H. Perto do Coração Selvagem. Laços de Família (nota: fazer a conexão com a novela do Manoel Carlos e se fingir de culto). Clarice, gênia. A perfeita tradução do meu ser imperfeito.

Preciso esconder o fato de que, na idade mais tenra de todas as minhas idades tenras, uma das minhas primeiras leituras marcantes foi A Mulher que Matou os Peixes. Nah. Mesmo Clarice tem limites. Não posso exagerar. Importantes são todos os títulos de livros, sejam da Clarice ou não, que possuam as palavras mágicas “coração” e “paixão”, entre outras. Pessoas que matam não comem ninguém.

E para as mulheres que não lêem Clarice, ora, pra elas (e só pra elas) eu sussuro, entre salivas, que “aquela última crônica da Martha Medeiros estava do cacete, você não achou?”

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Vale a pena visitar e ler as mulheres. Copa de Literatura Brasileira 2009. Organizada pelo amigo Lucas Murtinho.

O vencedor está só (e rico, muito rico)

O vencedor está só, de Paulo CoelhoIngmar era um pastor das planícies desoladas da Pérsia. Um dia, ao chegar da guerra, percebeu que suas ovelhas estavam todas mortas. Foi quando a Morte lhe surgiu. E começaram os dois a jogar xadrez.

- Você veio me buscar? – perguntou.

- Eu sempre estive ao seu lado – respondeu a Morte.

Autor desconhecido, fabulário persa.

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Pouca gente sabe, moramos durante alguns anos no castelo do Paulo Coelho, na França. Quero dizer, nos arredores do feudo, numa choupana arrumadinha, perto do fosso dos crocodilos. Um lugar bonito.

Paulo nos visitava regularmente. Gostava de jogar xadrez, conversar fiado e exercer seu direito ao defloramento das minhas jovens irmãs. Os minutos (geralmente uns onze) voavam em sua boa companhia, entre risos e lágrimas de todos. Foi um período inesquecível das nossas vidas, sem dúvida. Em troca da moradia, ele nos deixava cuidar da plantação de chicória, e dela tirávamos o sustento. Meu e das minhas nove irmãs. E de uma saudosa prima em segundo grau, Veronika, que passou uma temporada conosco. E da Tia Brida, velha solteirona da família, ela também veio curtir um feriadão na França um ano desses.

A cada solstício de inverno (alguma relação com fertilidade), o grande escritor aparecia ávido de salivas pela nossa partida de xadrez. E filosofávamos sobre a vida, as mulheres, o dinheiro, as mulheres, mansões, mulheres, iates, mulheres. E sobre literatura, é claro. Tenho orgulho de ter dado inúmeros conselhos ao mestre, todos recebidos com o habitual sorriso afável. Todos desconsiderados sumária e polidamente. Ele me dizia, na época: “Adamastor, se eu der ouvidos pra todo mundo… a criação coletiva é uma merda, a arte é solitária na essência”. E eu:  “mas e o Raul?” Ele deu os ombros e confirmou minhas suspeitas.

O fato é que, com o passar dos anos, as virgens foram rareando lá em casa. E olhares cobiçosos começaram a recair sobre as minhas virtudes. Decidi que era a hora de me mudar. Sei lá, pegar um sol na Riviera Francesa. Talvez Cannes, qualquer lugar onde o topless fosse aceito e praticado no seio das famílias de bem. Deixei a choupana pra trás e nunca mais vi o Paulo, sozinho em seu castelo milionário.

Mas ele não se esqueceu de mim. Ontem recebi pelo correio um pacote. Era o seu mais novo livro, “O vencedor está só”. Decerto, uma autobiografia pungente. A triste solidão dos escritores muito ricos e famosos. Estava autografado. A dedicatória dizia algo como “enfiar as batatas goela abaixo de vocês, malditos perdedores”. Ah, o Paulo, e o seu senso de humor de um assassino em série.

Prometi a mim mesmo que leria o novo livro, depois que terminar o Harry Potter. Não vou me arrepender.

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Vale a pena visitar e participar! Copa de Literatura Brasileira 2009. Organizada pelo amigo Lucas Murtinho.

Mais sobre o Poder

Eu minto muito. Sou uma graça e pouco confiável, elas dizem. Mas o que vou narrar agora é a mais pura e destilada expressão da verdade. Aconteceu comigo.

Como alguns de vocês sabem, meu trabalho exige constantes viagens internacionais. Assuntos pra esmiuçar, conselhos pra dar e vender (mais vender do que dar), crises para resolver.

Este sou eu, fora deste blog: Mr. Goldman, o sujeito do mundo e que se doa e se vende (mais vender do que doar) ao mundo. O mundo me fez este indivíduo crucial, preciso retribuir.

Numa das minhas missões importantes, uma que preciso manter o sigilo para não comprometer o seu sucesso, fui parar na aprazível Nova Iorque, ali bem ao norte da fabulosa metrópole de Niterói-RJ. Eu e meus colaboradores fomos visitar algumas enormes instituições financeiras em perigo para oferecer (e vender) nossos serviços.

Tirei os vistos das minhas adocicadas estagiárias, Jubiely e Sulamita, e dividimos um apartamento triplo, num hotel aconchegante nas cercanias do Central Park, que é uma espécie de Campo de São Bento lá dos gringos. Um quarto limpinho e livre dos vírus da nova gripe. Era o mês de março e o vento ventava frio pelas ruas.

Deixei as duas ronronando no carpete e fui ao encontro dos meus camaradas. De posse de um copo de café colombiano da Star Bucks, rumamos para uma grande instituição que não posso revelar qual é. Só revelo que não quebrou. Ainda.

Chegamos na sala da reunião e fomos recebidos por vários branquinhos, gordinhos e carequinhas de meia-idade. Todos muito sorridentes, apesar da merda geral. Trocamos cartões e sentamos à mesa para discutir a situação.

Aqui cabe uma reflexão sobre cartões: nos EUA, qualquer Joseph Manuel é vice-presidente de alguma coisa. Ora, o regime é presidencialista, sabemos quem é que manda no pedaço. Todavia existem zilhões de VPs numa empresa americana média. O VP é, basicamente, o nosso querido Aspone tupiniquim. Outra categoria clássica nos cartões gringos e que se tornou comum aqui no Brasil é o cargo “Sócio”. Pensem: o sujeito é o “sócio”.  Qual o seu trabalho na empresa? Ser “sócio”. Eu nem gosto de conversar com os sócios porque sei que o sócio nada mais é do que o estagiário com direito a plano de saúde. Se você é “sócio”, você é “sócio de alguém”. Então, a pessoa importante na cadeia alimentar é justamente o “alguém”, não você. No Brasil, “sócio” é um título comum para designar jovens advogados mal-pagos.

Mas tudo bem. Recebi com um sorriso amistoso os cartões que os branquinhos me passavam: “VP Jr”, “Deputy VP”, “Associate VP”, “VP Manager Associate” e coisas assim. E iniciamos a reunião.

Conversávamos sobre a crise mundial, a economia da China e a economia do Brasil (acreditem, o Brasil tem o que mostrar e, mais incrível, os gringos americanos querem aprender com os mais pobrinhos – nós. Nóis é pobre mas é limpinho, eles agora sabem disso). E aí aconteceu. O Poder se manifestou.

Tinha uns 55 anos, bem ajustados no corpinho de 47 (não resisti à piada manjada, perdão). Pensei depois, ela era a avó que os meus netinhos pediram a Deus. Ela era o Poder. E entrou na sala, sem pedir licença, com dois branquinhos a servir de séquito.

Todos se levantaram das cadeiras. Interessante, pensando bem: todos se levantaram ANTES dela entrar. Escutaram seus passos no corredor e se movimentaram com a antecedência justa para recebê-la de pé. Como quem se perfila para escutar a execução de um Hino Nacional.

Ela não deu cartões. Quem pode, amigos, quem realmente PODE, não distribui esses pedacinhos de papel reciclado. Muitíssimo menos pede o teu cartão de “VP Assistant to Master Kenobi”. Esses títulos não interessam ao Poder. E quem se importou dela ter chegado com a reunião em andamento? Ora, o poder não tem hora pra chegar. Faz o próprio tempo e não usa relógios.

Começou a falar da crise, em seu inglês cristalino. Se falasse em húngaro arcaico, todos compreenderiam. No tempo dos Homens, acredito que discursou por uns 15 minutos, apenas isso. Estabeleceu os pontos do nosso trabalho, como deveria ser conduzido. Sorriu, perfeita, e desapareceu, tão rápido como havia chegado, com o seu séquito particular de branquinhos. E só então lembramos de voltar a respirar.

Tento reconstituir o seu rosto na minha memória. Não consigo fazê-lo. Parece que o Poder provoca uma espécie de efeito “homens de preto”. Um borrão que nos deixou uma mensagem de paz, amor e prosperidade econômica. E a reunião transcorreu agradavelmente até o seu final.

Quando terminamos, minhas adoráveis associadas me aguardavam para patinar no Central Park. Depois passeamos de mãos dadas, paramos na loja da Apple e dei um ipod pra Jubiely e outro pra Sulamita. Elas e eu ficamos felizes.

O Poder

Tempestuosa Serena

Eu poderia começar este texto dizendo que tenho atração pelas mulheres poderosas. Mas não é exatamente a expressão singular da verdade, pois toda mulher é poderosa se comparada aos frágeis homens que pensam possuí-la. E toda mulher me atrai. Seria um começo excessivamente genérico.

Reformulo, portanto:

Todo homem quer poder. Atenção engraçadinhos, eu disse PODER. Porque, afinal, FODER também é uma forma de PODER. Uma daquelas que envolve sangue, suor e lágrimas e é aceita pela maioria das religiões, ainda que algumas restrijam o ato à procriação – à parte mais gostosa da procriação, quero dizer. Todo homem quer Poder e mulher é Poder.

Todavia um fato se sobrepõe às muitas fantasias das nossas vidas e dos nossos amores fictícios: algumas mulheres podem mais que a maioria. Elas podem muito. Podem além da compreensão, além da crítica da razão pura e simples.

É fácil distingui-las, nas ruas, nas praias, nas reuniões de condomínios, nas festinhas de embalo, nos vestiários femininos, nas revistas de celebridades. Sim, algumas são celebridades, embora não seja regra, o Poder nem sempre vem acompanhado da fama, nem toda poderosa é Madonna, o Poder pode ocultar-se em penumbra, enredar-se em lençois de seda e desaparecer entre lambidas.

Enfim, como homem que sou, carrego o etéreo fardo de amar todas as mulheres do mundo e a ilusão de capturar seus Poderes, ainda que por um infinitésimo milimétrico de tempo entre o Big Bang e o apocalipse.

Certa vez, estava eu caminhando na calçada e escutei um barulho de alarme de tranca de carro. Vejam, só pelo barulho da tranca alertei para o Poder que se aproximava de mim. Não tenho dúvidas que vocês, homens, entendem o que digo. É como alguns animais que pressentem a chuva, nós homens pressentimos o Poder.

E ela se aproximou e passou através de mim – o Poder passa através de nós, nada detém o Poder. Fiquei segundos parado, experimentando o ar que ela respirou, tateando o aroma viscoso que pairava. Eu e o flanelinha, extáticos, incapazes de murmurar um “gostosa”. Perfume, o Poder é perfumado. E o perfume cala, profundo.

Quando vejo as irmãs Williams na TV, parece que sofro a transformação do desenho animado: de lobo alfa destruidor de grandes e peludas bestas passo a filhote indefeso de um cachorrinho chitzu. Elas PODEM! Eu temo e amo as irmãs Williams como se teme e ama a um deus. Deusas.

Não amava e temia tanto um par de mulheres assim desde a época de ouro em que torcia fervorosamente pelo time de vôlei feminino de Cuba, nos anos 90. Aquela coletividade, liderada pela Poderosa Mireya Luiz, foi o ápice da civilização humana. Eu daria 50 anos da minha vida se pudesse participar de uma briga de toalhas molhadas no vestiário cubano depois da conquista da medalha de ouro em 96.

Pois em verdade, vos digo, sem mais delongas: tudo é força, mas só SERENA WILLIAMS É PODER!

Inquietações sobre a nudez

Francine Piaia, do BBB9Eu nem precisava dizer, por força da obviedade: a nudez feminina é o evento mais fantástico que pode ocorrer acima da terra e debaixo do céu. Pela nudez, nascemos. Pela nudez, amamos e temos filhos. Rimos, choramos e sentimos. A nudez é o caminho da verdade e da vida, vos digo.

Dessa forma, desde tenra infância, interesso-me pela nudez. A feminina. Era preciso ver a nudez. Tocá-la. Prová-la. Sentir seu aroma. Escutar as batidas telegrafadas de um peito aberto.

Do estudo à prática. E, com a prática, mais estudo. Os anos passam, a pele passa, os pêlos desaparecem, os piercings genitais eruptam. Assistimos à nudez sublimada nOs Braços de Machado de Assis, nos folhetos, nas fotografias em preto-e-branco, nos primeiros filminhos mudos, nas revistas a cores, no VHS do lar, nas peças de teatro de vanguarda, no DVD pirata da Leila Lopes.

Saudamos cada nudez como se fosse a primeira. Porque, afinal, toda nudez é única, toda nudez é nova, e toda a nudez será perdoada.

Por isso folheamos as revistas de nudez, baixamos pornografia na internet, assistimos aos filmes explícitos, e vibramos quando um peitinho se descola da atriz principal do filme. Nem sempre somos compreendidos por nossas mulheres, nem sempre elas entendem que existem, no homem, o amor pela mulher e o amor pela nudez. E são amores distintos, ainda que nós homens amemos a nudez de nossas mulheres. O amor pela nudez é poligâmico, é amor ao mundo – mulheres, por favor, nos entendam. Consumimos nudez por amor, é só. Um ato de bondade.

E na senda da minha história com a nudez, a Playboy da maravilhosa e mais do que belíssima Francine Piaia me trouxe algumas inquietações filosóficas. Fez-me pensar no futuro. Fez-me refletir o que foi o meu passado.

A Playboy da Francine, e tenho certeza de que vocês que me lêem sabem do que estou falando (eu conheço o meu povo), é a Playboy da anti-nudez. O ensaio, ao contrário da tendência dos últimos anos, insinuou mais do que mostrou.

- Uma merda! – foi a minha primeira consideração, educada, sobre o ensaio.

Depois, numa noite repleta de insônias, tive outros pensamentos. Uma crise de consciência. Pelo menos, em uma das minhas muitas consciências.

Questionei as fundações da minha alma atormentada. Perguntei-me: quando foi que me tornara um deficiente erótico? Um portador de necessidades pornográficas especiais, quem sabe com direito a vaga nos estacionamentos púbicos? Por que não era mais capaz de ter prazer em imaginar a nudez? Será que a esse consumo desenfreado de mulheres nuas, de todas as formas, cores, tamanhos, silicones e photoshops me deixou insensível ao amor (pela nudez)?

Se, no século XIX, Machado de Assis escrevia sacanagem e excitava as pessoas com a descrição de dois braços femininos, por que no século XXI nós homens não poderíamos ficar com tesão por uma bela mulher e sua nudez de luz, sombras e idéias?

A minha reação de desespero e desamparo, concluí, nascera do amor por uma nudez que não conseguira completar, incapaz que era. Senti raiva, admito. E agora, como restaurar a minha habilidade em sonhar nudezes? Como um viciado, eu teria que reduzir a dose de imagens explícitas, paulatinamente, até voltar a sentir tesão pela capa da revista Boa Forma do mês. Até voltar a achar a Tina, da Turma da Mônica, a maior das gostosas.

Sim, amigos, é a nudez profunda que tento resgatar em minha vida. A nudez que escapa aos sentidos, é a nudez da imaginação que eu desencontrei, em algum lugar dessa caminhada imoral. Principio uma nova trilha, de iluminação. Sofrida. Suada. Áspera.

Preciso reaprender que a sujeira está nos olhos de quem vê. Quero meus olhos sujos de volta! E perdoem-me se eu sofrer alguma recaída, e comprar, por exemplo, a nova edição da Revista Sexy com aquelas duas gostosas se agarrando. Lembrem-se, amigos e amigas, a minha vida é amor. Sem amor, eu nada seria.

Adamastor e o Gafagnoto

O GafanhotoPouca gente sabe, hoje confesso pra vocês: no século XVII, fundei uma ordem secreta dedicada aos prazeres do tato – OS PUGNETTI. Pugna, sei que não precisava explicar pois meus jovens leitores são todos muito cultos, significa “Luta”. Então a Ordem lutava pela justiça com as próprias mãos, suadas e peludas, incansavelmente, diuturnamente, todas as noites antes de dormir, todas as manhãs depois de acordar, e no intervalo do café durante o expediente também.

Os tempos eram inquisitoriais, quem viveu o século XVII sabe do que estou falando. A Igreja nos perseguia, muitos de nós eram açoitados em praça pública. Mal sabiam os carrascos que o chicotinho de couro era bastante popular entre os Pugnetti.

Embora a contragosto de muitos membros, entramos na clandestinidade. O chicote era legal, mas o óleo fervente era um pouco além da conta. Passamos a atuar nos bastidores escuros e úmidos da História, porém sempre deixando nossos rastros pegajosos. Por exemplo, percebam o duplo sentido nas notas de um dólar. Aquele olho solitário na ponta da pirâmide; aquela águia de bico aberto, arreganhada por detrás do escudo do São Caetano, com suas mãozinhas pra fora segurando espetos e paus. Sim, amigos, os Estados Unidos da América tiveram, entre seus fundadores, muitos seguidores da Ordem dos Pugnetti.

Nós inventamos a Internet.

Pois enfim chegamos ao século XXI, firmes e fortes, ainda condenados pelo Papa da vez (aquele outro? Rá! Demos um jeito).

E numa bela noite, Gafagnoto, um de meus discípulos mais dedicados, me liga no meu I-Phone (nós inventamos a Apple, percebam a poesia da sacanagem embutida na marca). Ele diz:

- Mestre Adamastor, dominei a técnica para transcender este mundo físico e penetrar no mundo espiritual. É só uma questão da correta manipulação da Força.

Fiquei pasmo. Seria mesmo possível atingir a imortalidade via fricção carinhosa? Teria Gafagnoto descoberto o manuscrito perdido de Leonardo da Vinci? Minha querida namorada Scheila, que estava deitada ao meu lado, olhos apertadinhos de tanto sono, se virou para perguntar o que estava se passando. E eu:

- Nada não, Scheilinha, provavelmente só um delírio sem pé nem cabeça de um punheteiro de meia-idade. Por favor, volte a dormir, não repara nos meus gemidos, tá tudo bem, boa noite, amor.

Não suporto ver uma mulher chorar

Jelena Dokic, Roland Garros, 2009.

Roland Garros 2009: a australiana Jelena Dokic sente dores e abandona, em prantos, a partida contra Elena Dementieva, da Rússia. Estou comovido.

As eternas

Monica Bellucci e Sophie MarceauAqueles que me seguem no Twitter já leram sobre as minhas infiéis estagiárias, Jubiely e Sulamita. São umas queridas, umas docinhas de côco, como diria um famoso apresentador de programa de TV, bastante popular também na Internet.

Eu, senhor zeloso das minhas meninas, tenho cuidado delas da melhor maneira possível, para que não lhes falte nada – a água na tigela, os pêlos sempre lustrosos e escovados, o branco dos olhos de um brilho ofuscante. Bumbunzinhos empinados e sutiãs meia-taça, de grife.

E ensino truques às meninas, caso contrário passariam o dia a lamber-se sem objetividade. Verdade, confesso, no início era divertida, toda aquela lambição. Entretanto, como sempre digo às minhas pupilas, a língua deve ser usada com objetividade e precisão, ou acabamos morrendo por ela.

Ensinei Jubiely a trazer, em sua boquinha de gloss fosforescente, as minhas revistas até a nossa cama (enquanto Sulamita me traz as pantufas e o chicotinho de couro). E, belo dia, com indescritível satisfação, saboreei a Paris Match ensalivada da semana: lá estavam, maravilhosas para além da língua, Monica Bellucci e Sophie Marceau.

Quando vi a capa, imaginei-me como o mais cândido e invisível dos fungos, navegando de uma epiderme a outra, um oceano de pele depilada repleto de tranqüilidade e de beleza. O Cristóvão Colombo das micoses. Sim, amigos, se houver reencarnação no universo, quero voltar evoluído como um fungo na virilha da Sophie Marceau. Daqueles que não saem com pomada alguma.

Junte a idade das minhas pequenas ajudantes e não dá uma Monica Bellucci inteira (perguntei-me: ó Senhor, quantas mulheres eu teria que juntar para dar uma Monica Bellucci? Que seja de TPM, vá lá, pra facilitar a conta. Enlouquecedora questão. Mulheres como ela insanam o mais racional dos homens, como eu).

Admirando as duas, assim abraçadinhas, se amando como se não houvesse amanhã, inevitável pensar que estão próximas de completar um século de beleza. Eu as vejo como monumentos das nossas vidas, eternos, indestrutíveis, à prova do tempo, testemunhas impassíveis dos nossos risos e das nossas lágrimas. Pudesse eu conquistá-las, proclamaria para quem pudesse ouvir: “soldados! Do alto dessas pirâmides, 40 anos vos contemplam!”

Minha avó e o Vasco

Club de Regatas Vasco da Gama, 1949

Quando a minha avó morreu, anos atrás, supus que diria algumas palavras durante o enterro. Imaginei que alguém da família me pediria algum depoimento bacana, dado que sou a eventuais poesias – junte uma personalidade cínica enclausurada num bom coração com as leituras certas na infância e você pode criar alguém que se acha escritor. Feito eu.

Eu não queria discursar mas, se fosse inevitável, preparara uma linha de argumentação que pudesse combinar emoção e humor. Sim, humor – apesar da tristeza da perda, um enterro de alguém que percorrera quase todo o século XX deveria ser uma celebração da vida e do tempo. Viver o que ela viveu era um motivo de alegria e creio que é assim que a família absorveu sua morte.

Aconteceu então que cheguei atrasado no enterro, por motivos alheios à minha vontade, e não houve brecha para que eu falasse qualquer coisa. Confesso que fiquei aliviado por não precisar discursar.

Um ano depois, fez-se a descoberta da matsevah. Lá estávamos todos reunidos novamente, no cemitério. Daquela vez eu não me atrasei, e algumas pessoas olhavam pra mim com olhos de “discurso discurso”. Eu sabia quais palavras proferir, desde o enterro no ano anterior, mas concluí que ali não era mais a oportunidade certa, que havia gente que não entenderia a mensagem, que poderia ficar ofendida.

Assim o tempo passou, guardei o segredo comigo. Agora resolvo tornar públicos alguns dos meus pensamentos da época. Obviamente, já obliterados pelos meus pensamentos recentes. Pensar demais dá nisso, você muda com freqüência.

As primeiras palavras do meu discurso seriam: “minha avó foi uma mulher formidável. Tão formidável que ninguém aqui conseguirá achar uma mancha no seu caráter. Eu mesmo só consigo encontrar um único defeito, inexplicável pela pessoa tão boa que era: minha avó torcia pelo Vasco.”

Sempre discuti com meus primos, como poderia a nossa idolatrada e perfeita avó torcer por “aquele-time-que-não-pode-ser-nomeado”? E ela era capaz de escalar os “scratches” vascaínos campeões da década de 40, sem titubear. Quando criança, tentava convencê-la a mudar de lado, mas nem todo o imenso amor que ela sentia pelos netos seria suficiente para que abandonasse a nau do almirante português.

Percebo, adulto, que existem lições de tolerância em tudo que ela dizia e fazia. Ela nos ensinou a tolerar os vascaínos. Mais que isso, aprendemos que eles podem ser amados. Quando adulto, conheci vascaínas adoráveis (não o suficiente para casar e ter pequenos vascaínos mas elas eram gente de ótima qualidade apesar de tudo). Tenho amigos vascaínos e tive o prazer de encontrá-los no Maracanã para uma cerveja, antes das partidas decisivas (e maior prazer depois dos jogos, quando o Flamengo vencia).

Em 2003, último campeonato carioca vencido pelo “Gigante da Colina”, recebi um telefonema inesperado – era minha avó, comemorando a derradeira glória vascaína de sua vida. Do jeito dela, me disse: “e o Vasco, hein?” O tipo da observação que me deixou puto. Ser sacaneado pela sua avó era mesmo o fundo do poço.

Hoje, a minha avó é uma lembrança que pertence aos vivos que aqui estão. Não viveu para testemunhar o time de coração ser rebaixado. Algum dia, o nosso mais querido e odiado rival também será uma lembrança, pois aprendemos nos enterros que ao pó tudo retornará. E não se enganem, até mesmo o Flamengo se acabará, alguns meses depois do apocalipse.

Mas o dia do Vasco ainda não chegou. Não foi no ano passado. Em 2009, retornará à primeira divisão, contando com a minha ferrenha torcida. A favor. Para que seja coroado o segundo colocado da série B. Será um júbilo para todos nós. E lamentarei que ela não esteja aqui para comemorar.

Por fim, creio que a melhor forma de avivar a lembrança da minha avó é recitar o time campeoníssimo de 1949, que conquistou o sul-americano um ano antes e foi base da seleção vice-campeã de 1950. Um timaço, o “Expresso da Vitória”. Enquanto houvermos vida, haveremos de celebrar os mortos. E o meu discurso terminaria com…

Em pé: Eli, Jorge, Augusto, Danilo, Barbosa e Sampaio.
Agachados: Nestor, Maneca, Ademir, Ipojucan e Mário.
Na arquibancada, feliz: minha avó, Rachel.

A melhor mulher do mundo (2) – a importância de ser fiel

Scheila Carvalho, sem comentários.

O maior calhorda do mundo é aquele que bate no peito e diz, eivado de suas certezas: “não olho pra mulher alguma que não seja a minha mulher”. Não percebe, submerso no pântano da própria insensibilidade, que a maior declaração de amor que poderia dar à sua amada é justamente a admissão pública de que, entre tantas outras de notáveis qualidades estéticas (fotoxopadas ou não), foi Ela, o Amor Único da Sua Vida, a escolhida para dividir os fluidos corporais, o ciclo menstrual irregular e as tais da alegria e da tristeza e da saúde e da doença.

Não sabe o canalha, ou intencionalmente oculta, que o amor é uma experiência religiosa e, como tal, exige disciplina e sacrifícios em prol de uma recompensa maior. Não há como fugir dessa via-crúcis. A fidelidade é sim um sacrifício voluntário, e este sacrifício é a coroa de espinhos de todo o relacionamento monogâmico. É preciso a compreensão de que a tentação engrandece a fé.

Ora, não vou tergiversar a respeito. A fidelidade é para poucos e bravos camaradas. Todavia eu, se fosse mulher, desconfiaria daqueles que não dispendem uma gota de saliva por Scheilas e congêneres. Um dia, amiga, esse sujeito bonzinho ao seu lado vai te acordar com uma faca no seu pescoço ou trocar você pela estagiária gordinha de aparelho nos dentes, o que for pior – sabe-se lá o que passa na mente opaca desse seu parceiro de cama.

O homem que contempla as outras, quando encara a sua amada, diz: “olhei para todas mas só vejo você”.

*   *   *

É uma madrugada de edredom. Chove. É um clichê, mas você realmente dorme aquele famoso sono dos justos. O telefone toca.

- Adamastor… socorro Adamastor…

Daqui a duas horas precisa estar de pé para ir trabalhar. Só você sabe o estrago que acordar de madrugada faz ao seu dia. Pensa que deve mudar o número e retirá-lo do catálogo. E ralha:

- Juliana, não ligue mais pra minha casa, em horário nenhum! – E desliga.

Sua mulher nem se mexeu, continua ferrada no sono das justas. Você filosofa sobre como a temperatura dela é agradável: fresca no verão, cálida no inverno. Então, se aproxima do seu corpo, por debaixo da coberta. Passa a mão na sua bunda e fecha os olhos, pensando, “Scheila, eu te amo”.