Ano passado em Mariembad

Já que estou há quase um ano sem dar o ar da graça por aqui, saio do resguardo postando esse texto que escrevi há uns 10 anos atrás. Não é lá um filme muito característico de se falar aqui no udigrudi, mas tem o seu valor. Além de ser a minha obra favorita do gênio Alain Resnais, fala de perspectivas e quebras do espaço-tempo. Física quântica cinematográfica.

Alain Resnais é um cineasta para poucos. Seus filmes são demasiadamente verborrágicos, difíceis, poéticos, e, principalmente, experimentais. Ele nunca foi chegado a uma narrativa convencional. HIROSHIMA, MON AMOUR tem quase todos os diálogos em off. PROVIDENCE é narrado por um livro mesclado com a realidade dos personagens e do escritor. MEU TIO DA AMÉRICA é narrado como tese cientifica de um professor que analisa três pessoas comuns em conflito. ANO PASSADO EM MARIEMBAD é o mais experimental e o mais genial da carreira de Resnais.

MARIEMBAD é narrado em quatro perspectivas de tempo. Deu pra entender? Imagine um casal de burgueses que se reencontram após um ano no mesmo luxuoso hotel onde viveu um romance. Ele tenta convencê-la a fugir. Simples, não? Não. E se essa simplicidade projetasse simultaneamente os acontecimentos do presente, do passado e da memória do casal. Ele tenta lembrar de detalhes do tal “ano passado”. Ela tenta esquecer o mesmo passado.

Esses quatro tempos se intercalam quadro a quadro. Viradas de tempo em curtos espaços. Quase que um videoclipe de perspectivas. Ela aparece vestida de preto na sala, se vira para a câmera, já está de camisola branca num quarto e ao virar-se se vê diante de um jardim com novo vestido. Loucura. Um filme insano que deixa o espectador totalmente atordoado durante 80 dos totais 90 minutos de projeção. Na verdade, algumas peças vão se encaixando, para chegar ao desfecho surpreendente e apoteótico que não decepcionará aos mais atentos.

Ao final, uma certeza: Resnais falou tudo sobre amor, paixão e solidão. E brincou de fazer cinema. A vedete do filme é o tempo. Quase que uma proposição da construção e desconstrução da narrativa linear do cinema. MARIEMBAD é a apoteose. A perspectiva da memória, dos sonhos e daquilo que achamos que pode ser realidade. Será que o tempo realmente existe ou será que nós mesmos somos os criadores das nossas próprias histórias e cronologias racionais? E o inconsciente, será que ele não age por conta própria, nos provando que o tempo pode não existir? A linguagem filmíca é a linearidade temporal.

Um puro sangue da Nouvelle Vague que influenciou e fez escola. Mariembad é um filme silencioso e paradão? Não, tem diálogos sem parar e uma incansável trilha clássica (que lembra a dos filmes de horror do Roger Corman) de fundo que não deixa o ritmo cair um só segundo. Mas tome cuidado porque é quase incompreensível. Um legítimo filme difícil para os desavisados. Filme pra macho e mulé com M maiúsculo que está disposto a ver uma obra de arte do cinema europeu. Pensar e filosofar sem ter medo de usar o cérebro como boa parte da humanidade.

Quino sempre genial

Tá difícil de arranjar tempo pra escrever aqui. Mas, pra não dizer que abandonei o meu querido udigrudi, brindo meus 3 leitores com uma tirinha genial do meu amado cartunista argentino Quino, o gênio criador da doce Mafalda. Tenho algumas coletâneas dele na minha estante e, volta e meia, folheio a edição especial sobre a Morte, o fino do fino do mais negro humor portenho. Essa aqui debaixo eu recebi hoje de uma vizinha. Uma aula bem sugestiva de como educar minha linda filha de 6 anos.

Cassy Jones, O magnífico sedutor

Saio de um longo período de silêncio para indicar aos meus leitores a colaboração que fiz para a excepcional revista virtual ZINGU! Um ensaio sobre CASSY JONES, O MAGNÍFICO SEDUTOR, o filme mais “bobinho” (porém divertidíssimo) do eternamente saudoso Luís Sergio Person. A crítica faz parte de uma seção especial com análises de todos os filmes do cineasta. Cliquem!

http://www.revistazingu.net/cassy_jones.php

Pier Paolo Pasolini

boschPasolini tem uma das mais contundentes, chocantes e polêmicas carreiras da história do cinema. Como outros tantos cineastas italianos, começou como assistente de célebres nomes do neo-realismo. Nos anos 60, se notabilizou como um dos grandes do cinema italiano, criando obras antológicas como O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS, TEOREMA e POCILGA.

Encantava com seqüências grandiosas repletas de figurantes nus ou trajando imponentes figurinos e sempre envoltos por cenários grandiosos. Esbanjava cinismo e sarcasmo e adorava chocar, abusando da sexualidade e da escatologia que revirou estômagos de muitas gerações de cinéfilos. Em TEOREMA (1968), faz um anjo seduzir toda uma família de burgueses decadentes. Em POCILGA (1969) criou um personagem que só consegue se relacionar com porcos.

Influenciou e foi influenciado por muitos gênios do cinema, tais como Fellini, Jodorowsky e Glauber Rocha, mas também colecionou antipatias oficiais. Era militante gay numa época em que a grande maioria considerava isso um crime e nunca perdia a chance de atacar ferozmente a igreja, a política e o moralismo nos seus filmes.

Acabou sendo assassinado por um suposto “amante” que mais tarde alegou que o crime fora cometido por questões políticas. Isso foi em 1975, pouco depois de lançar o seu filme mais assustador SALÓ, OS 120 DIAS DE SODOMA, uma alegoria ambientada na segunda guerra, onde burgueses nazi-fascistas torturam lindos meninos e meninas até a exaustão, cortando-os em pedaços e fazendo-os, inclusive, comer merda.

Mas essa resenha é pra saudar a sua TRILOGIA DA VIDA composta por DECAMERON (1971), CONTOS DE CANTERBURY (1972) e AS MIL E UMA NOITES (1974). Pasolini explorou debochadamente tudo o que podia sobre religiosidade, lutas de classes e sexualidade humana, filmando a literatura burlesca da idade média típica de três regiões distintas (a Itália de Bocaccio, a Inglaterra de Chaucer e o lendário popular do Oriente Médio). Os três filmes são praticamente um só. Vistos em seqüência ficam melhor ainda. Muito engraçado e um bocado chocante também.

Esse espaço aqui se deve a visão do inferno proposta por Pasolini em CONTOS DE CANTERBURY (baseada na pintura O ULTIMO JULGAMENTO de Hieronymus Bosch). A visão do purgatório feita por um genial e infernal cineasta que nunca será esquecido.

Zézero

Há quase 2 anos atrás abri um post falando do mestre Ozualdo R. Candeias. Na ocasião, citei a genialidade do seu média metragem ZÉZERO e cheguei a contar a historinha completa, já que o filme era coisa de museu, difícil de encontrar até mesmo na web. Mas eis que me deparo com o filme em 3 partes postado por alguma alma iluminada no youtube. Justiça seja feita a este que é possivelmente um dos melhores e mais irreverentes filmes brasucas de todos os tempos. Divirtam-se!

Taking Off

Em 1970, Milos Forman era um cineasta tcheco que chegava em Hollywood como mais uma promessa da geração 70 formada por Scorsese, Coppola, Spielberg, Hooper e cia. Ao longo da sua carreira norte-americana, faturou o Oscar principal duas vezes com os seus geniais UM ESTRANHO NO NINHO e AMADEUS. Foi também responsável pela lotação de salas de cinema ao redor do mundo com uma filmografia invejável que inclui filmaços como HAIR, RAGTIME, O POVO CONTRA LARRY FLYNT, O MUNDO DE ANDY e VALMONT.

No entanto, sempre que Milos Forman vira assunto de uma conversa comigo, não penso duas vezes em citar meu filme favorito. Sua estréia em Hollywood foi em 1971 com um longa modesto e simplesmente magnífico. TAKING OFF (em português – sic! – PROCURA INSACIÁVEL) levou o Prêmio Especial do Juri no Festival Cannes e é, até hoje, o mais perfeito retrato da geração flower power (perdão EASY RIDER, mas é a realidade). Conta a história de uma jovem aristocrata que foge de casa para viver seus sonhos de liberdade com um bando de hippies. Ao invés de acompanhar a menina, a câmera de Forman dá preferência para a angústia dos pais. Uma busca de porquês que culmina numa das mais geniais e irônicas sequências “legalize” já feitas no cinema.

Esse post tem como objetivo único mostrar essa cena maravilhosa e louvar mais uma vez um filme genial de um cineasta iluminado.

Dossiê Rê Bordosa

rebordosa

 

Meu presente de natal. Ela, a única, a musa bukowskiana da minha adolescência espinhenta Rê Bordosa, em stop motion para altinhos. Viva a ídala dos tempos em que Chiclete com Banana era arte de vanguarda e não essa tosqueira baiana feita pra embalar beijo na boca nos carnavais soteropolitanos. Amém Angeli, amém Laerte. Rê Bordosa is not dead! Sem mais delongas, DOSSIÊ RÊ BORDOSA (2008, direção de César Cabral) em 2 capítulos.

Horror no cinema brasileiro CCBB RJ

vampirochumbinho

Amantes cariocas do cinema udigrudi, tremei! Do dia 22 de dez a 10 de janeiro o CCBB oferece a mostra do título, reunindo a nata do cinema tupiniquim que alguns chamam de marginal, outros de cinema de invenção e alguns outros preferem chamar de terrir. Gente do calibre de José Mojica, Ody Fraga, Jean Garrett, Ivan Cardoso, Elyseu Visconti, Carlos Hugo Cristensen e muito mais… Mas nada se compara a sessão especial maldita do dia 08, AS TARAS DO MINI VAMPIRO, direto da Boca, o meu, o seu, o nosso, anão Chumbinho! Sim, o nosso amuleto da sorte fugiu da gaveta de cuecas do Adamastor para mostrar todos os dotes que o consagraram como nosso mais querido galã do cinema nacional. Segue programação. Divirtam-se!

Dia 22/12 (terça))
- 15h – O JOVEM TATARAVÔ (1936), de Luiz de Barros
- 17h – FANTASMA POR ACASO (1946), de Moacyr Fenelon
- 19h – VENENO (1952), de Gianni Pons

Dia 23/12 (quarta):
- 15h – À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964), de José Mojica Marins
- 17h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967), de. José Mojica
Marins
- 19h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008), de José Mojica Marins

Dias 24 e 25/12 (quinta e sexta): o cinema estará fechado

Dia 26/12 (sábado):
- 16h – DESPERTAR DA BESTA (1969), de José Mojica Marins.
- 18h – LOBISOMEM, O TERROR DA MEIA-NOITE (1972), de Elyseu Visconti
Cavalleiro
- 20h – A FORÇA DOS SENTIDOS (1979), de Jean Garrett

Dia 27/12 (domingo):
- 15h – A REENCARNAÇÃO DO SEXO (1981), de Luiz Castilini
- 17h – ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1975), de Carlos Hugo Christensen
- 19h – THE RITUAL OF DEATH / RITUAL MACABRO (1991), de Fauzi Mansur

Dia 29/12 (terça):
- 15h – AS SETE VAMPIRAS (1986), de Ivan Cardoso
- 17h – O SEGREDO DA MÚMIA (1981), de Ivan Cardoso
- 19h – UM LOBISOMEM NA AMAZÔNIA (2005), de Ivan Cardoso

Dia 30/12 (quarta):
- 15h – EXCITAÇÃO (1977), de Jean Garrett
- 17h – O ESTRIPADOR DE MULHERES (1978), de Juan Bajon
- 19h – THE RITUAL OF DEATH / RITUAL MACABRO (1991), de Fauzi Mansur

Dias 31/12 e 1º/01 (quinta e sexta): o cinema estará fechado

Dia 2/01 (sábado):
- 16h – PECADO NA SACRISTIA (1975), de Miguel Borges
- 18h – OLHOS DE VAMPA (1996), de Walter Rogério
- 20h – O FIM DA PICADA (2009), de Christian Sagaard

Dia 3/01 (domingo):
- 15h – A MULHER DO DESEJO (A CASA DAS SOMBRAS) (1975), de Carlos Hugo
Christensen
- 17h – 3 Episodios: “Solo de Violino”(1980), de Ody Fraga; “O
Gafanhoto”(1981), de John Doo; “O Pasteleiro”(1981), de David Cardoso
- 19h – MANGUE NEGRO (2008), de Rodrigo Aragão

Dia 5/01 (terça):
- 15h – O JOVEM TATARAVÔ (1936), de Luiz de Barros
- 17h – FANTASMA POR ACASO (1946), de Moacyr Fenelon
- 19h – VENENO (1952), de Gianni Pons

Dia 6/01 (quarta):
- 15h – À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964), de José Mojica Marins
- 17h – ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967), de José Mojica
Marins
- 19h – ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008), de José Mojica Marins

Dia 7/01 (quinta):
- 15h – A REENCARNAÇÃO DO SEXO (1981), de Luiz Castilini
- 17h – ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1975), de Carlos Hugo Christensen
- 19h – O MANÍACO DO PARQUE (2009), de Alex Prado

Dia 8/01 (sexta):
- 15h – AS SETE VAMPIRAS (1986), de Ivan Cardoso
- 17h – O SEGREDO DA MÚMIA (1981), de Ivan Cardoso
- 19h – UM LOBISOMEM NA AMAZÔNIA (2005), de Ivan Cardoso
- 21h – SESSÃO MALDITA:
AS TARAS DO MINI VAMPIRO (1987), de José Adalto Cardoso

Dia 9/01 (sábado):
- 16h – EXCITAÇÃO (1977), de Jean Garrett
- 18h – O ESTRIPADOR DE MULHERES (1978) Juan Bajon
- 20h – SHOCK (1984), de Jair Correia

Dia 10/01 (domingo):
- 15h – A MULHER DO DESEJO (A CASA DAS SOMBRAS)
(1975), de Carlos Hugo Christensen
- 17h – ’3 Episodios: “Solo de Violino”(1980), de Ody Fraga; “O
Gafanhoto”(1981), de John Doo; “O Pasteleiro”(1981), de David Cardoso
- 19h – ‘MANGUE NEGRO (2008), de Rodrigo Aragão

Ataque de Pânico

 

Alguns inocentes “golpes” de marketagem dão certo… Fede Alvarez, um publictário uruguaio de 30 anos, juntou alguns amigos bambas em computação gráfica para realizar esse curta-metragem de 5 minutos. Alegou ter gasto 500 dólares na realização do filme (me engana que eu gosto!) e botou pra circular na rede há 2 semanas atrás. O vídeo já é hit no youtube e vai quebrar a barreira de 1 milhão de views logo, logo.

Não é pra menos. Num país onde a tradição cinematográfica é quase nula, ver esse ATAQUE DE PÂNICO causa, de imediato, o espanto absoluto. É irretocável e assustador! Se as marcas Steven Spielberg ou Roland Emmerich estivessem no curta, ninguém ia duvidar da procedência. Um roteiro bobinho que serve de fio condutor para mostrar em 5 minutos Montevideo sendo invadida por robôs gigantes. NADA TOSCO! É de um rigor técnico e estético capaz de deixar qualquer criador de blockbuster hollywoodiano de cabelo em pé. Tanto que os direitos do curta já estão sendo disputados a tapa por alguns dos maiores estúdios americanos. Aguarde porque, em breve, teremos um longa sci-fi arrasa quarteirão comandado por um ermano uruguaio.

Mas dizer que só custou 500 dólares é sacanagem, né não?

Pausa nos trabalhos

Caros leitores, seguidores, fãs e amantes.

Meu mau humor tem extrapolado os limites da civilidade humana. Mulher, filha, família, amigos… Niguém mais me aguenta. Na verdade, nem eu me aguento mais. Como o patrão Adama me restringe aos filmes e não me deixa usar isso aqui como divã, resolvi fazer o que todo nerd maníaco depressivo sócio compulsivo deveria fazer… Inaugurei um blog pra mostrar em prosa, poesia e imagens toda a raiva que um devoto do agnosticismo-criacionista-bigbangueano tem pra destilar… Lembrem-se que o dono ladra mas não morde. Todos são bem vindos!

www.inferozmente.blogspot.com