Pasolini tem uma das mais contundentes, chocantes e polêmicas carreiras da história do cinema. Como outros tantos cineastas italianos, começou como assistente de célebres nomes do neo-realismo. Nos anos 60, se notabilizou como um dos grandes do cinema italiano, criando obras antológicas como O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS, TEOREMA e POCILGA.
Encantava com seqüências grandiosas repletas de figurantes nus ou trajando imponentes figurinos e sempre envoltos por cenários grandiosos. Esbanjava cinismo e sarcasmo e adorava chocar, abusando da sexualidade e da escatologia que revirou estômagos de muitas gerações de cinéfilos. Em TEOREMA (1968), faz um anjo seduzir toda uma família de burgueses decadentes. Em POCILGA (1969) criou um personagem que só consegue se relacionar com porcos.
Influenciou e foi influenciado por muitos gênios do cinema, tais como Fellini, Jodorowsky e Glauber Rocha, mas também colecionou antipatias oficiais. Era militante gay numa época em que a grande maioria considerava isso um crime e nunca perdia a chance de atacar ferozmente a igreja, a política e o moralismo nos seus filmes.
Acabou sendo assassinado por um suposto “amante” que mais tarde alegou que o crime fora cometido por questões políticas. Isso foi em 1975, pouco depois de lançar o seu filme mais assustador SALÓ, OS 120 DIAS DE SODOMA, uma alegoria ambientada na segunda guerra, onde burgueses nazi-fascistas torturam lindos meninos e meninas até a exaustão, cortando-os em pedaços e fazendo-os, inclusive, comer merda.
Mas essa resenha é pra saudar a sua TRILOGIA DA VIDA composta por DECAMERON (1971), CONTOS DE CANTERBURY (1972) e AS MIL E UMA NOITES (1974). Pasolini explorou debochadamente tudo o que podia sobre religiosidade, lutas de classes e sexualidade humana, filmando a literatura burlesca da idade média típica de três regiões distintas (a Itália de Bocaccio, a Inglaterra de Chaucer e o lendário popular do Oriente Médio). Os três filmes são praticamente um só. Vistos em seqüência ficam melhor ainda. Muito engraçado e um bocado chocante também.
Esse espaço aqui se deve a visão do inferno proposta por Pasolini em CONTOS DE CANTERBURY (baseada na pintura O ULTIMO JULGAMENTO de Hieronymus Bosch). A visão do purgatório feita por um genial e infernal cineasta que nunca será esquecido.


Os escalpeladores de nazistas do Tarantino mereciam espaço aqui no udigrudi. Mas infelizmente vacilei por ter visto ANTICHRIST e os INGLORIOUS BASTERDS, apesar de geniais, ficaram na reserva. Em termos de bizarrice, o registro desse último nocaute do Lars Von Trier não poderia passar despercebido.
Nada na minha ideologia de vida bate com o padrão normal. Talvez por isso, amor pra mim signifique Godard, Belmondo e Karina em PIERROT LE FOU. Não porque é um dos melhores filmes da minha vida. E sim porque é um filme romântico que trata o amor como algo improvável e incerto. Na verdade, o amor em PIERROT LE FOU nada mais é do que uma desculpa esfarrapada para que os personagens possam romper com suas realidades para viver uma grande aventura. Uma história de amor entre duas figuras que não fazem a menor questão de amar. Só querem mesmo é fugir da banalidade de seus cotidianos.



