CÃO SEM DONO

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CÃO SEM DONO
(2006, Brasil, de Beto Brant e Renato Ciasca)

A irregularidade estética de grandes e pequenos cineastas é inevitável. Ninguém está livre de cair nas graças de um péssimo roteiro ou de uma produção capenga. Ego, miopia, desejo pessoal, exigências de patrocinadores. Nem sempre as coisas dão certo. Passados dez anos do seu primeiro longa, Beto Brant lança seu quinto filme CÃO SEM DONO provando que irregularidade é algo desconhecido na sua cartilha cinematográfica. Renato Ciasca, habitual colaborador de Brant, também assina a direção. Aliás, Brant e Ciasca estrearam juntos na direção do curta AURORA, em 1987.

Mesmo tentando se reinventar a cada novo filme, Brant não escorrega. Foi a uma fronteira perdida do Brasil falar sobre pistoleiros (OS MATADORES), investigou o passado dos anos de chumbo (AÇÃO ENTRE AMIGOS), visitou os guetos paulistas e sua marginalia (O INVASOR) e dissecou o processo de criação artística (CRIME DELICADO). Temas tão diferentes explorados pelo foco humanista e perverso dos brilhantes roteiros de Marçal Aquino, sem sombra de dúvidas, o melhor em atividade no Brasil. O que mais intriga em todos os seus filmes é o processo de redescoberta que os personagens vivem. As pessoas mudam de acordo com as regras ao seu redor. Ninguém está livre de ser um mutante, algo como estar aberto a qualquer diferença. Fuga do habitual, da rotina.

Curiosamente, CÃO SEM DONO, fala justamente do inverso. Da dificuldade de adaptar-se ao que não somos. Como se adequar a uma rotina imposta pelo mundo? Dessa vez o que importa é a desconstrução de todo o processo de criação dos personagens anteriores de Brant e Aquino. Baseado no livro de Daniel Galera, Até o dia em que o cão morreu, o filme narra a história de Ciro, um jovem recém formado em literatura que se depara com a dificuldade de tornar-se adulto e independente. Introspectivo e filósofo, vive com seu cachorro num modesto apartamento até conhecer Marcela, uma ambiciosa modelo que é seu inverso. A identificação entre os opostos, leva-os a mergulhar num romance silencioso, erótico e reflexivo.

O casal central parece real. Somos testemunhas das quatro paredes e daquela relação de entrega e esperança numa vida de incertezas. Um misto de ACOSSADO (Goddard), OS SONHADORES e ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Bertolucci), com toques de Jim Jarmush e Dogma95. Um filme brasileiro de arte, de boa arte. Como se estivéssemos lado a lado espectador e atores. Para refletir e pensar nessa vida errada que é a realidade. Os sistema. Os fatos. Os ser livre e viver sem problemas. A dúvida. Que se propõe a ser espontâneo. Nos gestos, nos atos, no sexo, nos diálogos. Investigando as conseqüências sociais que transformam o pensamento e a arte em marginais. E que fazem a juventude quebrar suas próprias convicções para enfrentar a vida adulta. O origem da rebeldia e da conseqüente solidão. Fugindo num amor poético.

Os diálogos são espontâneos. Não há texto. Apenas contextos. Os atores seguem uma linha de raciocínio e falam. A narrativa nada convencional destaca as interpretações e a carga dramática. Os diálogos improvisados impressionam e surpreendem pela fluidez e espontaneidade. Margem do mundo real. O elenco quase desconhecido é sensacional. Ciro é interpretado por Julio Andrade (que se destacou em ótimas participações em O HOMEM QUE COPIAVA e MEU TIO MATOU UM KARA). Tainá Muller, além de linda, estréia com propriedade no papel de Marcela. Outras grandes figuras são o Pai, Roberto Oliveira, e o porteiro Elomar, Luiz Carlos Coelho.

CÂO SEM DONO não é o melhor filme de Brant. Não agrada a qualquer público. É muito diferente dos seus filmes anteriores. É muito diferente de grande parte dos filmes nacionais. É um dos filmes mais universais que já vi no Brasil. Não tem pátria, o que soa estranho no país para o grande público. Ainda assim fala de um Brasil muito próximo da maioria de nós. Alguns não percebem. A linguagem é européia, para poucos. O que importa é que inova. Inovação linda, poética e triste. Mas tem lá um quê de otimismo. As coisas simplesmente podem acontecer.