Zézero

Há quase 2 anos atrás abri um post falando do mestre Ozualdo R. Candeias. Na ocasião, citei a genialidade do seu média metragem ZÉZERO e cheguei a contar a historinha completa, já que o filme era coisa de museu, difícil de encontrar até mesmo na web. Mas eis que me deparo com o filme em 3 partes postado por alguma alma iluminada no youtube. Justiça seja feita a este que é possivelmente um dos melhores e mais irreverentes filmes brasucas de todos os tempos. Divirtam-se!

Comments (9)

  1. |Fly| wrote::

    Maravilha! Agora falta recuperarem pérolas como alguns curtas e médias perdido do Sganzerla. Fico triste contanto pois divulguei este ZéZero entre amigos, ditos cinéfilos, depois que vi a tua postagem, e nenhum mostrou interesse, e os poucos que assistiram acharam que eu estava zoando com eles em dizer que “esta porcaria amadora” era um bom filme. Pois é… Esta geração cinéfila a la Avatar está foda. Foda não, está perdida mesmo, se fosse foda teria culhões. Abraço bicho!

    Thursday, February 4, 2010 at 12:56 pm #
  2. mrl-x wrote::

    E aí bicho!

    E aí meu caro Blaque.

    por coincidência estou trabalhando em cima do Candeias e tem uma novidade pra você agora lá na Comunidade do Orkut

    Veja o ultimo topico que acabei de lançar agora

    abrx

    mrlx

    Wednesday, February 17, 2010 at 11:33 pm #
  3. mrl-x wrote::

    vá lá:

    http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=4799352&tid=5438432661316665376

    valeu

    mrlx

    Thursday, February 18, 2010 at 12:01 am #
  4. mrl-x wrote::

    TEXTO DO PAULO EMILIO SALLES GOMES:

    ****

    Zézero

    Paulo Emílio Salles Gomes

    A moça acena para o jovem caipira com as facilidades e prazeres da grande cidade. Ele se des-pede dos amigos e da família, e parte. Na cidade brutal tudo é enlameado e sórdido: o trabalho, a morada, a comida e o sexo. Logo não terá condições de mandar dinheiro para a família. A única esperança é a loteria esportiva. A sorte o favorece, mas quando volta para casa a família está na cova. Pergunta o que vai fazer com todo aquele dinheiro e a garota-propaganda da civilização lhe dá uma resposta chula.

    No início do filme a garota-propaganda é uma sereia irrisória, louquinha, enfeitada com fitas de celulóide, cujo canto consiste num arsenal de periódicos: os jornais mais importantes do Rio e de São Paulo, as revistas sérias e as outras, a publicidade, os empregos, os crediários e as mulheres nuas.

    O cabloco ingênuo do começo de Zézero, com seu feixe de lenha no ombro, era, em ultima análise, feliz. A noção de que o dinheiro não traz felicidade se insinua, e também a idéia de que a miséria rústica é, afinal de contas, preferível à ilusão urbana. Esses arquétipos tradicionais de certo anarquismo, de certa literatura, e de certo cinema são, porém, sufocados em Zézero pela mais crua desesperança. Depois do prólogo da sereia, a história é desenvolvida de forma metódica e sem perda de tempo. Ultrapassados os umbrais da estação de Sorocaba, a miséria se revela. O caipira pratica um pouco de mendicância mas é logo aliciado pela construção civil. Num fluir do quotidiano, descrito com pontual repetição, são abertas duas ordens de parênteses, colunas mestres do âmago da fita: as cartas para família e a satisfação sexual.

    O filme permite que o espectador leia, com dificuldade, o texto ditado pelo caipira e escrito por um amigo semi-analfabeto. Seguindo a trilha de um bilhete afixado à porta de Buñuel, o cinema moderno (sobretudo Godard) tem perseguido a expressividade das palavras manuscritas, mas só encontro equivalência para a potencialidade dramática das cartas de Zézero em algumas do diário do padre Bernanos e Bresson. A brecha emotiva é porém mais funda na fita brasileira porque nela individual e social são a mesma coisa.

    A quase insuportável gravidade de Zézero, contudo, será imposta pelas cenas de sexo. Em duas ocasiões, o pobre herói se envolve com meretrizes da várzea, uma vez com dinheiro e outra sem. O tratamento visual dado às duas passagens é semelhante. Se bem que em uma o negócio é jogo, na outra, luta. A hostilidade final da prostituta que obteve algum dinheiro ilustra o conceito de que a natureza do sexo pago e do forçado é necessariamente a mesma.

    A variedade da expressão dramática é, porém, assegurada pela trilha sonora da segunda seqüência, onde predomina o rosnar de cães enfurecidos. O mesmo tema sonoro já aparecia no dia de pagamento da construção, e a associação não parece fortuita em Zézero. Ela exprime, ao seu jeito, a nostalgia anárquica por um passado mítico de relações harmoniosas, e a aspiração utópica ao trabalho, no entender de muitos, é porém tênue. Nessa fita, qualquer esperança respira mal, as duas seqüências de sexo nos marcam de forma direta e impiedosa. Há algo de inadequado e irrisório no emprego das expressões “meretrizes”, “prostituta” e na sua contratação, a propósito dessas mocinhas paulistanas caçando a subsistência nos terrenos vagos do arrebalde. Afinal, mal conhecemos as palavras novas criadas pelos freqüentadores e usadas por praticantes de uma clandestinidade sexual ao léu e a céu aberto. Algumas delas despontam confusamente na trilha sonora de Zézero, rica em criatividade e drama.

    O autor dessa obra com um rebotalho e película é Ozualdo Candeias, responsável por numerosos filmes de A margem até A herança; esse artista original e profundo foi de início muito festejado, mas em seguida seus filmes foram sendo afastados dos espectadores. Ao que tudo indica, Zézero ficará igualmente relegado ao ineditismo, o que é uma pena, inclusive porque a última fita de Candeias fulmina a chamada pornografia que anda preocupando tanta gente. É verdade que Zézero talvez fosse considerado por essa mesma gente um antídoto demasiado vigoroso.

    Paulo Emílio – Um intelectual na linha de frente. São Paulo: Brasiliense/Embrafilme, 1986, p. 300-302. Publicado como folheto de programa de cinema do CEFISMA, Centro Acadêmico de Física da USP, São Paulo, 1973.

    ****
    GOMES, Paulo Emilio Salles. “Zézero”.
    In: Paulo Emílio – Um intelectual na linha de frente. Organizado por Carlos Augusto Calil e Maria Teresa Machado. São Paulo, Brasiliense/Embrafilme, 1986. p. 300-302.
    Texto clássico, do maior pensador do cinema brasileiro, sobre o filme “Zézero” de Ozualdo Candeias, publicado originalmente como folheto de programa de cinema dd CEFISMA, Centro Acadêmico de Física da USP, São Paulo, 1973.
    Vide texto reproduzido no site da Heco sobre o diretor Ozualdo Candeias:
    http://www.heco.com.br/candeias/especiais/registro/06_03.php

    Thursday, February 18, 2010 at 2:20 pm #
  5. mrl-x wrote::

    Texto sobre ZEZERO de Vitor Angelo:

    Fonte:
    http://www.heco.com.br/candeias/filmes/medias/04_04_01.php

    *****

    ZÉZERO

    Ficção, 1974, 35 mm, P&B, 31 min

    Camponês miserável tem a visão de uma “fada”, que o convence a ir para a cidade através de fotos publicitárias e promessas. Lá, só consegue emprego na construção civil, onde o pouco que ganha gasta com apostas na loteria esportiva.

    Ninguém faz um zoom como Candeias. A cada filme do mestre do cinema marginal essa sensação se renova. O zoom foi o elemento de linguagem banalizado com o advento e a popularização das câmeras VHS. Surge como efeito especial de diversos vídeos caseiros. Atualmente, nada mais clichê do que um zoom (aproximar-se em movimento do objeto focado).

    Como o cineasta paulista consegue ainda hoje nos surpreender e chamar a atenção, em seus filmes, com esse tão desgastado movimento de câmera?

    Muito já se falou da subjetiva em A margem, mas o zoom tem sido uma de suas marcas registradas, seja na abertura de seu episódio O acordo, da Trilogia do terror, seja nas ambientações de O vigilante.

    Zézero é um dos inúmeros exemplos do poder de Candeias em dar uma leitura particular para os movimentos de câmera. Tratando de um de seus temas prediletos, a migração, Candeias desfia a construção dos meios de comunicação de massa como agentes de sedução que fazem o pobre agricultor deixar o árduo trabalho no campo para conseguir um não menos pesado trabalho na cidade. Depois de amargar na cidade, o migrante consegue ganhar na loteria. Volta para o campo, mas a família que ele deixou lá, já está morta. O filme é permeado por diversos zooms, mas curiosamente a função narrativa chave dele, que é a de aproximação, não é utilizada, pois nunca nos aproximamos da trama, nem dos personagens, nem das palavras da revista que se fecha nesse movimento. Tudo é meio entrecortado, rápido, feroz. Uma não-aproximação.

    Nesses momentos, entra o projeto artístico de Candeias. O seu cinema é o espaço do questionamento, não da identificação. O zoom é o movimento por excelência da aproximação entre espectador e filme, e, quando bem utilizado, é capaz de jogar o espectador para dentro da tela. Candeias faz o contrário, seu zoom nos joga para fora, em uma espécie de distanciamento crítico, para melhor observarmos as operações do que deseja narrar. Ninguém faz um zoom como Candeias.

    Vitor Angelo

    Thursday, February 18, 2010 at 2:22 pm #
  6. mrl-x wrote::

    fonte:
    ANGELO, Vitor. “Zézero”.
    Artigo eletrônico encontrado no site da Heco sobre Ozualdo Candeias:
    http://www.heco.com.br/candeias/filmes/medias/04_04_01.php
    Crítica do filme de Ozualdo Candeias, de 1974.

    Thursday, February 18, 2010 at 2:24 pm #
  7. mrl-x wrote::

    Ozualdo fala do filme:
    Zézero e O Candinho
    ___________
    “Agora Zézero e O Candinho eu fiz com uma máquina nas costas e um jipe, que eu tinha um jipe nessa época. Esses filmes eu chamei de subterrâneos, nem mandei para a censura senão estaria fodido, talvez nem tivesse aqui.
    O Zézero tinha a seguinte motivação: quando criaram a loteca, achei que era uma safadeza, o cara ao invés de comer a marmita, o ovo, o feijão com arroz, vai jogar na loteca. Achei isso mau. O governo abusa da ignorância dos outros, cuja ignorância já é da responsabilidade dele, vai por aí afora. Acontece que o Estado abstratamente e concretamente é o responsável por essas coisas todas.
    No Candinho tem o poder que é o fazendeiro e a religião que é aquele falso – Cristo que ajuda a explorar todas as pessoas e eles estão mais ou menos unidos. O Candinho tem a cabeça cheia dessas coisas, se tornou um cara imbecilizado. O dia que ele toma consciência ele deixa de ser imbecil. É o Llorente que faz esse papel, tá bem pra caramba o rapaz. Eu fui quase preso na rua por causa do personagem dele, o policial olhou assim: “Como você faz um negócio, você filma um negócio desse?”. Eu respondi: “É publicidade”. “Que publicidade você está fazendo com um cara desses?.” “O povo precisa de cachaça agora.” “Cachaça? Você vai vender?.” Eu falei: “O caso é o seguinte. Tem o roteiro aqui, que diz: ‘cuidado, não tome qualquer cachaça se não você vai ficar desse jeito’”. E os caras deram uma risadinha. No Zézero em frente à Sorocabana fui em cana também.
    As fitas passaram a ser requisitadas por estudantes, inclusive os da USP. O Paulo Emílio passou uma delas. Mas quando era pra passar na Geografia, não passou porque o pau quebrou antes.”
    ***
    fonte:
    http://www.heco.com.br/candeias/biografia/fotografia/02_03_07.php

    Thursday, February 18, 2010 at 2:25 pm #
  8. mrl-x wrote::

    Zézero
    Direção: Ozualdo Candeias
    Brasil, 1974.
    Por Fernando Niero, especialmente para a Zingu!
    ________________
    Truffaut certa vez disse que gostava de filmar “conto-de-fada para adultos”, é um pouco o que Ozualdo Candeias fez em Zézero. Após ter colocado a barca de Caronte no rio Tiête e adaptar Hamlet para o mundo rural de Minas Geraes, Candeias produziu essa inventiva e escrachada fábula em forma de média-metragem, falando da migração nordestina sem o olhar paternalista do Cinema Novo.
    Zézero aparece com em sua cidade pequena e sua família, a canção de Vidal França já adianta a narrativa e pergunta “o que lá na cidade que não tem no meu sertão?” quem responde é uma moça com negativos de filme na cabeça. Sempre sorridente, uma espécie de símbolo do progresso e civilização e mídia, e que está rodeada de jornais, revistas e um rádio, as imagens da cidade fascinam os olhos rurais de Zézero: o sorriso de Sílvio Santos, o rádio de pilha sobre a revista Realidade, as manchetes do Pasquim, Folha, Estado, e Noticias Populares. O que se vê após isso é um genial trabalho de montagem/colagem: fotografias de do personagem principal são coladas em fotos de revista junto a modelos e em demais cenas de luxo e a fama, representando os sonhos prósperos dele.
    Chegando em São Paulo, Zézero torna-se pedreiro, as promessas da sorridente moça não se concretizam. Ele só pode conseguir algo na base sorte (pagando em dia as mensalidades do carnê do baú da felicidade) ou pela violência (como nos estupros em terrenos baldios, um deles sendo pioneiro no uso de cenas de sexo entre pessoas feias) já lembrando um clássico ditado Sganzerliano “quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”.
    Por fim, há uma reviravolta na vida da personagem, não contarei o final, mas só digo que é um dos mais apoteóticos e avacalhados do cinema brasileiro. Perguntado sobre o porque frase final, em palestra, Candeias respondeu: “Porque não havia nada melhor para ele dizer do que isso. Ele só podia falar isso”.
    ***
    fonte:
    http://revistazingu.blogspot.com/2007/03/doc-zezero.html
    ***
    DOSSIÊ Ozualdo Candeias. “Ozualdo Candeias – O Pasolini Paulista”.
    Revista Zingu! [São Paulo], n. 6, março 2007.
    Revista eletrônica de cinema dedicado ao diretor, contendo entrevista, filmografia e diversos artigos sobre os seus principais filmes:
    http://revistazingu.blogspot.com/2007/03/edicao-6.html

    Thursday, February 18, 2010 at 2:25 pm #
  9. mrl-x wrote::

    Zézero
    Direção: Ozualdo Candeias
    Brasil, 1974.
    Por Fernando Niero, especialmente para a Zingu!
    ________________
    Truffaut certa vez disse que gostava de filmar “conto-de-fada para adultos”, é um pouco o que Ozualdo Candeias fez em Zézero. Após ter colocado a barca de Caronte no rio Tiête e adaptar Hamlet para o mundo rural de Minas Geraes, Candeias produziu essa inventiva e escrachada fábula em forma de média-metragem, falando da migração nordestina sem o olhar paternalista do Cinema Novo.
    Zézero aparece com em sua cidade pequena e sua família, a canção de Vidal França já adianta a narrativa e pergunta “o que lá na cidade que não tem no meu sertão?” quem responde é uma moça com negativos de filme na cabeça. Sempre sorridente, uma espécie de símbolo do progresso e civilização e mídia, e que está rodeada de jornais, revistas e um rádio, as imagens da cidade fascinam os olhos rurais de Zézero: o sorriso de Sílvio Santos, o rádio de pilha sobre a revista Realidade, as manchetes do Pasquim, Folha, Estado, e Noticias Populares. O que se vê após isso é um genial trabalho de montagem/colagem: fotografias de do personagem principal são coladas em fotos de revista junto a modelos e em demais cenas de luxo e a fama, representando os sonhos prósperos dele.
    Chegando em São Paulo, Zézero torna-se pedreiro, as promessas da sorridente moça não se concretizam. Ele só pode conseguir algo na base sorte (pagando em dia as mensalidades do carnê do baú da felicidade) ou pela violência (como nos estupros em terrenos baldios, um deles sendo pioneiro no uso de cenas de sexo entre pessoas feias) já lembrando um clássico ditado Sganzerliano “quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”.
    Por fim, há uma reviravolta na vida da personagem, não contarei o final, mas só digo que é um dos mais apoteóticos e avacalhados do cinema brasileiro. Perguntado sobre o porque frase final, em palestra, Candeias respondeu: “Porque não havia nada melhor para ele dizer do que isso. Ele só podia falar isso”.
    ***
    fonte:
    http://revistazingu.blogspot.com/2007/03/doc-zezero.html
    ***
    DOSSIÊ Ozualdo Candeias. “Ozualdo Candeias – O Pasolini Paulista”.
    Revista Zingu! [São Paulo], n. 6, março 2007.
    Revista eletrônica de cinema dedicado ao diretor, contendo entrevista, filmografia e diversos artigos sobre os seus principais filmes:
    http://revistazingu.blogspot.com/2007/03/edicao-6.html

    Thursday, February 18, 2010 at 2:25 pm #

    Saturday, February 20, 2010 at 9:40 am #