
Dizem por aí – e sobretudo por escrito, em blogs com músicas do Kenny G. em MIDI ou em emails com Power Points de fotos outonais - que a vida é aquilo que acontece enquanto estamos fazendo planos. Pois bem. Minha vida enquanto leitora séria é aquilo que acontece enquanto estou às voltas com algum livro muito do furreca.
Ler um bom título, do gênero “bom, bom mesmo, do cacete!”, é uma experiência tão impactante quanto uma epifania sem Deus, quando só o autor e o leitor são todo-poderosos. No entanto, as obras literárias de quinta categoria – e sobretudo as de segunda mão – é que me contagiam os sentidos. Ao invés do delicioso cheiro de biscoito goiabinha do papel couché brilho, folhas com odor de cano de descarga de automóvel e tão ásperas quanto certas marcas de papel higiênico. Suas capas são sofríveis, a tipografia é deplorável, há erros de português página sim, outra também. Nas condições normais de temperatura e pressão, ninguém teria coragem de citar um livro tão vagabundo como sua obra de cabeceira – até porque ele estaria cheio de poeira, causando um violento ataque de espirros em plena madrugada do seu quarto.
Apesar de tantos deméritos, esses livros são vendidos e comprados em sebos, em bancas de jornal e até mesmo em pilhas organizadas sobre os dutos de ventilação do metrô. Já foram manuseados por moçoilas sonhadoras, senhoras pudicas, atendentes de farmácia, putas fazendo hora entre um cliente e outro, motoristas de táxi que lêem enquanto coçam o ouvido com a unha grande do dedo mindinho. Ao contrário de certas edições com capa de couro de “Os Lusíadas” – sabidamente monumental, imortal, sensacional e outros “al” –, as porcarias literárias já foram lidas e relidas por muitos pares de olhos e manuseadas por incontáveis mãos. São como a maioria de nós, pessoas comuns: não têm muito conteúdo, mas estão espalhadas por aí.
Então é isso. Já que não faltam resenhistas muito mais qualificados do que eu para dissertar a respeito dos clássicos e dos mais-vendidos-da-semana, fico com os livros que são da minha laia. E como quem abre mão de um Cabernet Sauvignon para entornar um guaraná Dolly bem geladinho e sem maiores dilemas de consciência, vamos direto ao que não interessa. É a vida.